Um primo de Virgilia
—Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz Dutra.
O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.
Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu falava-lhe de mil cousas differentes,—do ultimo baile do Cattete, da discussão das camaras, de berlindas e cavallos,—de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...
[CAPITULO XLIX]
A ponta do nariz
Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,—e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.
Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço daqui uma objecção do leitor:—Como pode ser assim, diz elle, se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu proprio nariz?