Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.
Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa saber é que Virgilia—chamava-se Virgilia—entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.
—Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.—Ora, defuntos! respondeu Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:—Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.
—Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.
E vendo o relogio:
—Jesus! são tres horas. Vou-me embora.
—Já?
—Já; virei amanhã ou depois.
—Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...