—Sua mana?

—Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.

Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com gravidade:

—Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao filho:

—Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer fallar para fazer crer que está á morte.

Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...

Era o meu delirio que começava.


[CAPITULO VII]