O homem de Plutarcho levantou-se, andou um pouco, contendo a indignação, como se dissesse comsigo, imitando o outro:—Ah! se lá estou com os meus athenienses!—Zeus, Dyonisos, Aphrodita... murmurava de quando em quando. Lembrou-me então que elle fôra uma vez accusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo d'onde vinha aquella indignação posthuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me,—um devoto do grego!—esquecia-me que elle era tambem um refinado hypocrita, um illustre dissimulado. E quasi não tive tempo de fazer esse reparo, porque Alcibiades, detendo-se repentinamente declarou-me que iria ao baile commigo.
—Ao baile? repeti attonito.
—Ao baile, vamos ao baile.
Fiquei atterrado, disse-lhe que não, que não era possivel, que não o admittiriam, com aquelle trajo; pareceria doudo; salvo se elle queria ir lá representar alguma comedia de Aristophanes, accrescentei rindo, para disfarçar o medo. O que eu queria era deixal-o, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria ter com V. Ex. Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me com os olhos no chão, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava alli com as minhas calças, os meus sapatos e o meu seculo.
—Quero ir ao baile, repetiu elle. Já agora não vou sem comparar as dansas.
—Meu caro Alcibiades, não acho prudente um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos athenienses; mas os outros homens de hoje, os rapazes, as moças, os velhos... é impossivel.
—Porque?
—Já disse; imaginarão que és um doudo ou um comediante, porque essa roupa...
—Que tem? A roupa muda-se. Irei á maneira do seculo. Não tens alguma roupa que me emprestes?
Ia a dizer que não; mas occorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então disse-lhe que sim.