A noticia desta aleivosia do illustre Bacamarte lançou o terror á alma da população. Ninguem queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. Commentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas finezas namoradas que o alienista outr'ora dirigira á prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima. E dahi a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida de estudos que elle levava, pareciam desmentir uma tal hypotbese. Historias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais credulos chegou a murmurar que sabia de outras cousas, não as dizia, por não ter certeza plena, mas sabia, quasi que podia jurar.

—Você, que é intimo delle, não nos podia dizer o que ha, o que houve, que motivo...

Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos attonitos, era para elle uma consagração publica. Não havia duvidar; toda a povoação sabia emfim que o privado do alienista era elle, Crispim, o boticario, o collaborador do grande homem e das grandes cousas; dahi a corrida á botica. Tudo isso dizia o carão jocundo e o riso discreto do boticario, o riso e o silencio, porque elle não respondia nada; um, dous, trez monosyllabos, quando muito, soltos, seccos, encapados no fiel sorriso, constante e miudo, cheio de mysterios scientificos, que elle não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.

—Ha cousa, pensavam os mais desconfiados.

Um desses limitou-se a, pensal-o, deu de hombros e foi embora. Tinha negocios pessoaes. Acabava de construir uma casa sumptuosa. Só a casa bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,—a mobilia, que elle mandara vir da Hungria e da Hollanda, segundo contava, e que se podia ver do lado de fóra, porque as janellas viviam abertas,—e o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnifica, jardim pomposo, mobilia rara. Não deixou o negocio das albardas, mas repousava delle na contemplação da casa nova, a primeira de Itaguahy, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a da camara. Entre a gente illustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se fallava, ou se louvava a casa do albardeiro,—um simples albardeiro, Deus do céu!

—Lá está elle embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã.

De manhã, com effeito, era costume do Matheus estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, até que vinham chamal-o para almoçar. Os visinhos, embora o comprimentassem com certo respeito, riam-se por traz delle, que era um gosto. Um desses chegou a dizer que o Matheus seria muito mais economico, e estaria riquissimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigramma inintelligivel, mas que fazia rir ás bandeiras despregadas.

—Agora lá está o Matheus a ser contemplado, diziam á tarde.

A razão deste outro dito era que, de tarde, quando as familias sahiam a passeio (jantavam cedo) usava o Matheus postar-se á janella, bem no centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, attitude senhoril, e assim ficava duas e tres horas até que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção do Matheus era ser admirado e invejado, posto que elle não a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticario, nem ao padre Lopes, seus grandes amigos. E entretanto não foi outra a allegação do boticario, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que elle Bacamarte descubrira e estudava desde algum tempo. Aquillo de contemplar a casa...

—Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.