—Não?
—Hade perdoar-me, mas talvez não saiba que elle de manhã examina a obra, não a admira; de tarde, são os outros que o admirara a elle e á obra.—E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cahir da noite.
Uma volupia scientifica alumiou os olhos de Simão Bacamarte. Ou elle não conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quiz, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma noticia incerta ou suspeita vaga. A explicação satisfel-o; mas como tinha as alegrias proprias de um sabio, concentradas, nada viu o boticario que fizesse suspeitar uma intenção sinistra. Ao contrario, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra; Crispim ficou tremulo, atarantado, disse que sim, que estava prompto. Chegaram duas ou tres pessoas de fóra, Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos; não só atrazavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma dellas, para acompanhal-o, e o dispensasse a elle. Que impaciencia! que afflicção! Emfim, sahiram. O alienista guiou para os lados da casa do albaideiro, viu-o á janella, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, examinando as attitudes, a expressão do rosto. O pobre Matheus, apenas notou que era objecto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de ltaguahy, redobrou de expressão, deu outro relevo ás attitudes... Triste! triste! não fez mais do que condemnar-se; no dia seguinte, foi recolhido á Casa Verde.
—A Casa Verde é um carcere privado, disse um medico sem clinica.
Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Carcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oéste de ltaguahy,—a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu á captura do pobre Matheus, vinte e tantas pessoas,—duas ou tres de consideração,—foram recolhidas á Casa Verde. O alienista dizia que só eram admittidos os casos pathologicos, mas pouca gente lhe dava credito. Succediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do proprio medico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguahy qualquer germen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e mingua daquella cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o producto diario da imaginação publica.
Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva,—ou quasi toda,—que algumas semanas antes partira de Itaguahy. O alienista foi recebel-a, com o boticario, o padre Lopes, os vereadores, e varios outros magistrados. O momento em que D. Evarista poz os olhos na pessoa do marido é considerado pelos chronistas de tempo como um dos mais sublimes da historia moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egregias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao consorte, de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o illustre Bacamarte; frio como um diagnostico, sem desengonçar por um instante a rigidez scientifica, estendeu os braços á dona, que caiu nelles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dons minutos, D. Evarista recebia os comprimentos dos amigos, e o prestito punha-se em marcha.
D. Evarista era a esperança de Itaguahy; contava-se com ella para minorar o flagello da Casa Verde. Dahi as acclamações publicas, a immensa gente que atulhava as ruas, as flammulas, as flores e damascos ás janellas. Com o braço apoiado no do padre Lopes,—porque o eminente Bacamarte confiára a mulher ao vigario, e acompanhava-os a passo meditativo,—D. Evarista voltava a cabeça a um lado e outro, curiosa, inquieta, petulante. O vigario indagava do Rio de Janeiro, que elle não vira desde o vice-veinado anterior; o D. Evarista respondia, enthusiasmada, que era a cousa mais bella que podia haver no mundo. O Passeio Publico estava acabado, um paraiso, onde ella fôra muitas vezes, o a rua das Bellas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas,—feitas de metal e despejando agua pela bocca fóra. Uma cousa galantissima. O vigario dizia que sim, que o Ro de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. Se já o era neutro tempo! Não admira, maior do que Itaguahy, e de mais a mais séde do governo... Mas não se pode dizer que Itaguahy fosse feio; tinha bellas casas, a casa do Matheus, a Casa Verde...,
—A proposito de Casa Verde, disso o padre Lopes escorregando habilmente para o assumpto da occasião, a senhora vem achal-a muito cheia de gente.
—Sim?
—É verdade. Lá está o Matheus...