—O albardeiro?
—O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e...
—Tudo isso doudo?
—Ou quasi doudo, obtemperou o padre.
—Mas então?
O vigario derreou os cantos da boca, á maneira de quem não sabe nada, ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não póde repetir a outra pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinario que toda aquella gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custava-lhe duvidar; o marido era um sabio, não recolheria ninguem á Casa Verde sem prova evidente de loucura.
—Sem duvida... sem duvida... ia pontuando o vigario.
Tres horas depois, cerca de cincoenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assumpto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metaphoras, amplificações, apologos. Ella era a esposa do novo Hippocrates, a musa da sciencia, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrellas, segundo a versão modesta de Crispim Soares, e dous sóes, no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas cousas um tanto enfastiado, mas sem visivel impaciencia. Quando muito dizia ao ouvido da mulher, que a rhetorica permittia taes arrojos sem significação. D. Evarista fazia esforços para adherir a esta opinião do marido; mas, ainda descontando tres quartas partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco annos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado polo mais singular dos reptos. «Deus, disse elle, depois de dar ao universo o homem e a mulher, esse diamante e essa perola da corôa divina (e o orador arrastava triumphalmente esta phrase de uma ponta a outra da mesa) Deus quiz vencer a Deus, e creou D. Evarista.»
D. Evarista baixou os olhos com exemplar modestia. Duas senhoras, achando a cortezanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças, e, provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episodio tragico,—ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma dellas, a mais piedosa, chegou a admittir, comsigo mesma, que D. Evarisla não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser attrahente ou bonita. Uma simples agua-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem eguaes, o que seria do amarello? E esta ideia fel-a tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e, levantados todos, foi ter com elle e fallou-lhe do discurso. Não lhe negou que era era improviso brilhante, cheio de rasgos magnificos. Seria delle mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou tel-a-hia encontrado em algum autor que...? Não, senhor; era delle mesmo; achou-a naquella occasião e parecera-lhe adequada a um arroubo oratorio. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôz uma ode á queda do marquez de Pombal, em que dizia que esse ministro era o «dragão asperrimo do Nada,» esmagado pelas «garras vingadoras do Todo»; e assim outras, mais ou menos fóra do commum; gostava das ideias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres...
—Pobre moço! pensou o alienista. E continuou comsigo:—Trata-se de um caso do lesão cerebral; phenomeno sem gravidade, mas digno de estudo...