D. Evarista ficou estupefacta quando soube, tres dias depois, que o Martim Brito fôra alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéas tão bonitas! As duas senhoras attribuiram o acto a ciumes do alienista. Não podia ser outra cousa; realmente a declaração do moço fôra audaciosa de mais.
Ciumes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimavel, o Chico das Cambraias, folgazão emerito, o escrivão Fabricio, e ainda outros? O terror accentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doudo. As mulheres, quando os maridos saiam, mandavam accender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não andavam fóra sem um ou dous capangas. Positivamente o terror. Quem podia, emigrava. Um desses fugitivos, chegou a ser preso a duzentos passos da villa. Era um rapaz de trinta annos, amavel, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguem sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distancia de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, ás vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fóra. Tinha a vocação das cortezias. De resto, devia as boas relações da sociedade, não só aos dotes pessoaes, que eram raros, como á nobre tenacidade com que nunca desanimava deante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado n'uma casa, não a deixava mais, nem os da casa o deixavam a elle, tão gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apezar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia, que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da villa, mas foi logo apanhado e couduzido á Casa Verde.
—Devemos acabar com isto!
—Não pode continuar!
—Abaixo a tyrania!
—Despota! violento! Golias!
Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa mas não tardava a hora dos gritos. O terror crescia: avisinhava-se a rebellião. A idéa de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfirio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação. Note-se,—e essa é uma das laudas mais puras desta sombria historia,—note-se que o Porfirio, desde que a Casa Verde começára a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela applicação assidua de sanguesugas que dalli lhe pediam: mas o interesse particular, dizia elle, deve ceder ao interesse publico. E accrescentava:—é preciso derrubar o tyranno! Note-se mais que elle soltou esse grito justamente no dia em Simão Bacamarte fizera recolher á Casa Verde um homem que trazia com elle uma demanda, o Coelho.
—Não me dirão em que é que o Coelho é doudo? bradou o Porfirio.
E ninguem lhe respondia; todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. A mesma demanda que elle trazia com o barbeiro, ácerca de uns chãos da villa, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça ou odio. Um excellente caracter o Coelho. Os unicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou allegando andar com pressa, mal o viam de as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, elle amava a boa palestra, a palestra comprida, gostada a sorvos largos, e assim é que nunca estava só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os outros. O padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse este trecho:
La bocca solevò dal fero pasto
Quel seccatore...