Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, á rebellião, á luta, ao sangue. Para accrescentar ao mal, um dos vereadores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro á Casa Verde—«Bastilha da razão humana»,—achou-a tão elegante, que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em temos energicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão:

—Nada tenho que ver com a sciencia; mas se tantos homens em quem suppomos juizo são reclusos por dementes, quem nos aflirma que o alienado não é o alienista?

Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra, e fallou ainda por algum tempo com prudencia, mas com firmesa. Os collegas estavam attonitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, désse o exemplo da ordem e do respeito á lei, não aventasse as suas idéas na rua, para não dar corpo e alma á rebellião, que era por ora um turbilhão de atomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco a effeito da outra: Sebastião Freitas prometteu suspender qualquer acção, reservando-se o direito de pedir pelos meios legaes a reducção da Casa Verde. E repetia com sigo, namorado:—Bastilha da razão humana!

Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ella deu o nome á revolta; chamavam-lhe o Cangica,—e o movimento ficou celebre com o nome de revolta dos Cangicas. A acção podia ser restricta,—visto que muita gente, ou por medo, ou por habitos de educação, não descia á rua; mas o sentimento era unanime, ou quasi unanime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—dada a diferença de Paris a Itaguahy,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.

D. Evarista teve noticia da rebellião antes que ella chegasse; veiu dar-lh'a uma de suas crias. Ella provava nessa occasião um vestido do seda,—um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,—e não quiz crer.

—Hade ser alguma patuscada, dizia ella mudando a posição de um alfinete. Benedicta, vê se a barra está boa.

—Está, sinhá, respondia a mucama de cocaras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim, Está muito boa.

—Não é patuscada, não, senhora; elles estão gritando:—Morra o Dr. Bacamarte! o tyranno! dizia o moleque assustado.

—Cala a hoca, tolo! Benedicta, olha ahi do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviezada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descozer para ficar egualzinho e...

—Morra o Dr. Bacamarte! morra o tyranno! uivaram fóra trezentas vozes. Era a rebellião que desembocava na rua Nova.