D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instinctivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D. Evarista. não dera credito, teve um instante de triumpho, um certo movimento subito, imperceptivel, entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por elle.
—Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.
D. Evarista, se não resistia facilmente ás commoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu á sala interior onde o marido estudava. Quando ella alli entrou, precipitada, o illustre medico escrutava um texto de Averróes, os olhos delle, empanados pela cogitação, subiam do livro ao tecto e baixavam do tecto ao livro, cégos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentaes. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que elle lhe désse attenção; á terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.
—Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lagrimas.
O alienista attendeu então; os gritos approximavam-se, terriveis, ameaçadores; elle comprehendeu tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranquillo, foi deposital-o na estante. Como a introducção do volume desconcertasse um pouco a linha dos dous tomos contiguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito minimo, e, aliás, interessante. Depois disse á mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.
—Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...
Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa.
—Abaixo a Casa Verde! bradavam os Cangicas.
O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou alli no momento em que a rebellião tambem chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero.—Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um signal pedindo para fallar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então, o barbeiro agitando o chapéo, afim de impôr silencio á turba, conseguiu aquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia fallar, mas accrescentou que não abusasse da paciencia, do povo como fizera até então.
—Direi pouco, ou até não direi nada, se fôr preciso. Desejo saber primeiro o que pedis.