—Um delicto!

—Creio que me conhece...

—Não tenho essa honra.

—Sou empregado na policia.

—Mas que tenho eu com o senhor? de que delicto se trata?

—Pouca cousa: um furto. O senhor é accusado de haver subtrahido uma chinela turca. Apparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas ha chinela e chinela. Tudo depende das circumstancias.

O homem disse isto com um riso sarcastico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existencia do objecto roubado. Concluiu que havia equivoco de nome, e não se zangou com a injuria irrogada á sua pessoa, e de algum modo á sua classe, attribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da policia, accrescentando que não era motivo, em todo caso, para incommodal-o a semelhante hora.

—Hade perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finissimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas tambem pela origem. A dona, que é uma de nossas patricias mais viajeiras, esteve, ha cerca de tres annos no Egypto, onde a comprou a um judeu. A historia, que este alumno de Moysés referiu ácerca daquelle producto da industria musulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizel-a. O que importa saber é que ella foi roubada e que a policia tem denuncia contra o senhor.

Neste ponto do discurso, chegára-se o homem á janella; Duarte suspeitou que fosse um doudo ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o metteram á força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu á desfilada.

—Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com ellas... e rir ainda por cima do genero humano.