Ouvindo aquella allusão á dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival supplantado. Ou a allusao seria casual e extranha á aventura? Duarte perdeu-se n'um cipoal de conjecturas, em quanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.

—Quaesquer que sejam os meus crimes, supponho que a policia...

—Nós não somos da policia, interrompeu friamente o homem magro.

—Ah!

—Este cavalheiro e eu fazemos um par. Elle, o senhor e eu faremos um terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não póde ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu?

—Não, senhor.

—Ha de entender logo mais.

Duarte resignou-se á espera, enfronhou-se no silencio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavallos.

—Chegámos, disse o homem gordo.

Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e offereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, d'ahi a pouco, ranger uma porta; duas pessoas,—provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro,—seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, phrases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, não viu ninguem mais.