Era uma sala vasta, assaz illuminada, trastejada com elegancia e opulencia. Era talvez sobre posse a variedade dos adornos; comtudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões, tapetes, espelhos,—a copia infinita de objectos que enchiam a sala, era tudo da melhor fabrica. A vista daquillo restituiu a serenidade de animo ao bacharel; não era provavel que alli morassem ladrões.
Reclinou-se o moço indolentemente na ottomana... Na ottomana! esta circumstancia trouxe á memoria do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problematica. Cavando mais fundo no terreno das conjecturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura metaphora; tratava-se do coração de Cecilia, que elle roubára, delicto de que o queria punir o já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras mysteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o ideal.
—Ha de ser isso, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente derrotado?
Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por effeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por elle deitou-lhe a benção, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estupido de todos os sentidos. O inesperado daquella apparição baralhou totalmente as ideias anteriores a respeito da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ella outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a elle e o convidou a seguil-o. Duarte não oppoz resistencia. Sairam por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas em castiçaes de prata. Os castiçaes estavam sobre uma meza larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cincoenta e cinco annos; era uma figura athletica, farta de cabellos na cabeça e na cara.
—Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.
—Não, senhor.
—Nem é preciso. O que vamos fazer exclue absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. Saberá em primeiro logar que o roubo da chinela foi um simples pretexto...
—Oh! de certo! interrompeu Duarte.
—Um simples pretexto, continuou o velho, para trazel-o a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca sahiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinella.
O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante, nem fôra comprada a nenhum judeu do Egypto; era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenhez. Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou resolutamente: