D. Benedicta voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.
—Vejo que me quer bem, disse ella.
—A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.
—Mereço? inquiriu ella entre desvanecida e modesta.
E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ella sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido. O conego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalisar a conversa, dando-lhe por assumpto a eleição do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de cajú, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos,—não com a boca,—e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulalia, um doce moreno, corado; dito que a mãe delle interiormente approvava, e que a mãe della não podia ver, tão entregue estava á contemplação da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!
[II]
D. Benedicta levantou-se, no dia seguinte, com a ideia de escrever uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da vespera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recepção nocturna, e, principalmente, désse noticia das novas relações com D. Maria dos Anjos. A mala fechava-se ás duas horas da tarde, D. Benedicta accordára ás nove, e, não morando longe (morava no Campo da Acclamação), um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo. Demais, chovia; D. Benedicta arredou a cortina da janella, deu com os vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o céu estava todo brochado de uma côr pardo-escura, malhada do grossas nuvens negras. Ao longe, viu fluctuar e voar o panno que cobria o balaio que uma preta levava á cabeça: concluiu que ventava. Magnifico dia para não sair, e, portanto, escrever uma carta, duas cartas, todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Ninguem viria tental-a.
Emquanto ella compõe os babadinhos e rendas do roupão branco, um roupão de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo dia anniversario, 19 de Setembro, convido a leitora a observar-lhe as feições. Vê que não lhe dou Venus; tambem não lhe dou Meduza. Ao contrario de Meduza, nota-se-lhe o alisado simples do cabello, preso sobre a nuca. Os olhos são vulgares, mas tem uma expressão bonachã. A bocca é daquellas que, ainda não sorrindo, são risonhas, e tem esta outra particularidade, que é uma bocca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu só digo o que quero, e só quero fallar das saudades e dos remorsos. Toda essa cabeça, que não enthusiasma, nem repelle, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e não magro nem gordo, mas fornido na proporção da estatura. Para que fallar-lhe das mãos? Ha de admiral-as logo, ao travar da penna e do papel, com os dedos afilados e vadios, dous delles ornados de cinco ou seis anneis.
Creio que é bastante ver o modo porque ella compõe as rendas e os babadinhos do roupão para comprehender que é uma senhora pichosa, amiga do arranjo das cousas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho do punho esquerdo, mas é porque, sendo tambem impaciente, não podia mais «com a vida deste diabo.» Essa foi a sua expressão, acompanhada logo de um «Deus me perdôe!» que inteiramente lhe extrahiu o veneno. Não digo que ella bateu com o pé, mas adivinha-se, por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. Em todo caso, a colera durou pouco mais de meio minuto. D. Benedicta foi á caixinha de costura para dar um ponto no rasgão, e contentou-se com um alfinete. O alfinete caiu no chão, ella abaixou-se a apanhal-o. Tinha outros, é verdade, muitos outros, mas não achava prudente deixar alfinetes no chão. Abaixando-se, aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um signal branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e viu o que era: era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedicta, porque a chinela era muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do anno passado. Um anjo, um verdadeiro anjo! D. Benedicta fitou os olhos irritados no signal branco; felizmente a expressão bonachã delles não era tão bonachã que se deixasse eliminar de todo por outras expressões menos passivas, e retomou o seu logar. D. Benedicta entrou a virar e revirar a chinela, e a passal-a de uma para outra mão, a principio com amor, logo depois machinalmente, até que as mãos pararam de todo, a chinela caiu no regaço, e D. Benedicta ficou a olhar para o ar, parada, fixa. Nisto o relogio da sala de jantar, começou a bater horas, D. Benedicta logo ás primeiras duas, estremeceu:
—Jesus! Dez horas!