E, rapida, calçou a chinela, concertou depressa o punho do roupão, e dirigisse á escrevaninha, para começar a carta. Escreveu, com effeito, a data, e um:—«Meu ingrato marido»; emfim, mal traçára estas linhas:—Você lembrou-se hontem de mim? Eu...» quando Eulalia lhe bateu á porta, bradando:
—Mamãe, mamãe, são horas de almoçar.
D. Benedicta abriu a porta, Eulalia beijou-lhe a mão, depois levantou as suas ao céu:
—Meu Deus! que dorminhoca!
—O almoço está prompto?
—Ha que seculos!
—Mas eu tinha dito que hoje o almoço era mais tarde... Estava escrevendo a teu pae.
Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe dizer alguma cousa grave, ao menos difficil, tal era a expressão indecisa e séria dos olhos. Mas não chegou a dizer nada; a filha repetiu que a almoço estava na mesa, pegou-lhe do braço e levou-a.
Deixemol-as almoçar á vontade; descancemos nessa outra sala, a de visitas, sem aliás inventariar os moveis della, como o não fizemos em nenhuma outra sala ou quarto. Não é que elles não prestem, ou sejam de máu gosto; ao contrario, são bons. Mas a impressão geral que se recebe é exquisita, como se ao trastejar daquella casa houvesse presidido um plano truncado, ou uma successão de planos truncados. Mãe, filha e filho almoçaram. Deixemos o filho, que nos não importa, um pirralho de doze annos, que parece ter oito, tão mofino é elle. Eulalia interessa-nos, não só pelo que vimos de relance no capitulo passado, como porque, ouvindo a mãe fallar em D. Maria dos Anjos e no Leandrinho, ficou muito séria e, talvez, um pouco amuada. D. Benedicta percebeu que o assumpto não era aprazivel á filha, e recuou da conversa, como alguem que desanda uma rua para evitar um importuno; recuou e ergueu-se; a filha veiu com ella para a sala de visitas.
Eram onze horas menos um quarto. D. Benedicta conversou com a filha até depois de meio dia, para ter tempo de descançar o almoço e escrever a carta. Sabem que a mala fecha ás duas horas. De facto, alguns minutos, poucos, depois do meio dia, D. Benedicta disse á filha que fosse estudar piano, porque ella ia acabar a carta. Saiu da sala; Eulalia foi á janella, relanceou a vista pelo Campo, e, se lhes disser que com uma pontasinha de tristeza nos olhos, podem crer que é a pura verdade. Não era todavia, a tristeza dos debeis ou dos indecisos; era a tristeza dos resolutos, a quem dóe de antemão um acto pela mortificação que hade trazer a outros, e que, não obstante, juram a si mesmos pratical-o, e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulalia, mas por isso mesmo é que as historias são contadas por alguem, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que era uma tristeza mascula, era;—e que dahi a pouco os olhos sorriam de um signal de esperança, tambem não é mentira.