—Devo dizer-lhe, ponderou o conego, que D. Maria dos Anjos não deseja que se faça nada á força.
—Qual força! Não é preciso força.
O conego reflectiu um instante:—Em todo caso, não violentaremos qualquer outra affeição que ella possa ter, disse elle.
D. Benedicta não respondeu nada; mas comsigo, no mais fundo de si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que acontecesse, a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda comsigo, depois de sair o conego:—Tinha que ver! um tico de gente, com fumaças de governar a casa!
A quinta-feira raiou. Eulalia,—o tico de gente, levantou-se fresca, lepida, loquaz, com todas as janellas da alma abertas ao sopro azul da manhã. A mãe acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de melodia; era ella que cantava, alegre, sem affectação, com a indifferença das aves que cantam para si ou para os seus, e não para o poeta, que as ouve e traduz na lingua immortal dos homens. D. Benedicta afagara muito a idéa de a vêr abatida, carrancuda, e gastára uma certa somma de imaginação em compôr os seus modos, delinear os seus actos, ostentar energia e força. E nada! Em vez de uma filha rebelde, uma creatura gárrula e submissa. Era começar mal o dia; era sair apparelhada para destruir uma fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pacifica, hospedeira, que lhe pedia o favor de entrar e partir o pão da alegria e da concordia. Era começar o dia muito mal.
A segunda causa do tedio de D. Benedicta foi um ameaço de enxaqueca, ás tres horas da tarde; um ameaço, ou uma suspeita de possibilidade de ameaço. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D. Benedicta não teve remedio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se, esteve quasi a dizer que definitivamente ficava; chegou a insinual-o á filha.
—Mamãe veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora, disse-lhe Eulalia.
—Pois sim, redarguiu a mão, mas não prometti ir doente.
Emfim, vestiu-se, calçou as luvas, deu as ultimas ordens; e devia doer-lhe muito a cabeça, porque os modos eram arrebitados, uns modos de pessoa constrangida ao que não quer. A filha animava-a muito, lembrava-lhe o vidrinho dos saes, instava que saissem, descrevia a anciedade de D. Maria dos Anjos, consultava de dous em dous minutos o pequenino relogio, que trazia na cintura, etc. Uma amofinação, realmente.
—O que tu estás é me amofinando, disse-lhe a mãe.