—Eulalia, parece que não mandamos participação a D. Maria dos Anjos? disse ella á filha, almoçando.

—Não sei; mamãe é quem se incumbiu dos convites.

—Parece que não, confirmou D. Benedicta. João, dá cá mais assucar.

O copeiro deu-lhe o assucar; ella, mexendo o chá, lembrou-se do carro que iria buscar o conego, e reiterou uma ordem da vespera.

Mas a fortuna é caprichosa. Quinze dias depois do casamento, chegou a noticia do obito do desembargador. Não descrevo a dôr de D. Benedicta; foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram ter com ella; D. Benedicta chorou todas as lagrymas de uma esposa austera e fidelissima. Depois da missa do setimo dia, consultou a filha e o genro ácerca da ideia de ir ao Pará, erigir um tumulo ao marido, e beijar a terra em que elle repousava. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher; depois disse á sogra que era melhor irem juntos, porque elle devia seguir para o Norte dahi a tres mezes em commissão do governo. D. Benedicta recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo todas as ordens necessarias á construcção do tumulo. O tumulo fez-se; mas a commissão não veiu, e D. Benedicta não pôde ir.

Cinco mezes depois, deu-se um pequeno incidente na familia. D. Benedicta mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro, com o pretexto de uma interrupção na obra, propoz acabal-a. D. Benedicta consentiu, e o acto era tanto mais honroso para ella, quanto que o genro começava a parecer-lhe insupportavel com a sua excessiva disciplina, com as suas teimas, impertinencias, etc. Verdadeiramente, não havia teimas: nesse particular, o genro de D. Benedicta contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ella propria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul; Eulalia, gravida, ficou com a mãe.

Foi por esse tempo que um negociante, viuvo, teve ideia de cortejar D. Benedicta. O primeiro anno da viuvez estava passado. D. Benedicta acolheu a ideia com muita sympathia, embora sem alvoroço. Defendia-se comsigo; allegava a edade e os estudos do filho, que em breve estaria a caminho de S. Paulo, deixando-a só, sosinha no mundo. O casamento seria uma consolação, uma companhia. E comsigo, na rua ou em casa, nas horas disponiveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação vivaz e subita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da morte do marido, pode-se dizer que era viuva. O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excellente.

Não casou. O genro tornou do Sul, a filha deu á luz um menino robusto e lindo, que foi a paixão da avó durante os primeiros mezes. Depois, o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedicta achou-se só e triste; o filho não bastava aos seus affectos. A ideia de viajar tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um phosphoro, que se apaga logo. Viajar sosinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou melhor ficar. Uma companhia lyrica, adventicia, sacudiu-lhe o torpor, e restituiu-a á sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a ideia do casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado, tambem viuvo.

—Casarei? não casarei?

Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella. Nesse quadro appareceu-Ihe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta; e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas palavras sem sentido: