—Olhe, disse D. Benedicta, vá amanhã.

Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedicta fallou-lhe da vida do mar; elle pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedicta ficou sem voz, pasmada. Lembrou-se, é verdade, que desconfiára delle, um dia, nas Larangeiras; mas a suspeita acabara. Agora não os vira conversar nem olhar uma só vez. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? Não podia ser outra cousa; a attitude séria, respeitosa, implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um casamento. Que sonho! Convidar um amigo, e abrir a porta a um genro: era o cumulo do inesperado. Mas o sonho era bonito; o official de marinha era um galhardo rapaz, forte, elegante, sympathico, mettia toda a gente no coração, e principalmente parecia adoral-a, a ella, D. Benedicta. Que magnifico sonho! D. Benedicta, voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eulalia era sua. Mascarenhas pegou-lhe na mão e beijou-a filialmente.

—Mas o desembargador? disse elle.

—O desembargador concordará commigo.

Tudo andou assim depressa. Certidões passadas, banhos corridos, marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa mãe! que actividade no preparo do enxoval, no plano e nas encommendas da festa, na escolha dos convidados, etc.! Ella ia de um lado para outro, ora a pé, ora de carro, fizesse chuva ou sol. Não se detinha no mesmo objecto muito tempo; a semana do enxoval não era a do preparo da festa, nem a das visitas; alternava as cousas, voltava atraz, com certa confusão, é verdade. Mas ahi estava a filha para supprir as faltas, corrigir os defeitos, cercear as demazias, tudo com a sua habilidade natural. Ao contrario de todos os noivos, este não as importunava; não jantava todos os dias com ellas, segundo lhe pedia a dona da casa; jantava aos domingos, e visitava-as uma vez por semana. Matava as saudades por meio de cartas, que eram continuas, longas e secretas, como no tempo do namoro. D. Benedicta não podia explicar uma tal esquivança, quando ella morria por elle; e então vingava-se da exquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo delle por toda a parte as mais bellas cousas do mundo.

—Uma perola! uma perola!

—E um bonito rapaz, accrescentavam.

—Não é? De truz.

A mesma cousa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava, antes e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veiu; o desembargador deu o seu consentimento, accrescentando que lhe doia muito não poder vir assistir ás bodas, por achar-se um tanto adoentado; mas abençoava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro.

Cumpriu-se o accordo á risca. Vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do Pará effectuou-se o casamento, que foi uma festa admiravel, esplendida, no dizer de D. Benedicta, quando a contou a algumas amigas. Officiou o conego Roxo, e claro é que D. Maria dos Anjos não esteve presente, e menos ainda o filho. Ella esperou, note-se, até á ultima hora um billhete de participação, um convite, uma visita, embora se abstivesse de comparecer; mas não recebeu nada. Estava attonita, revolvia a memoria a ver se descobria alguma inadvertencia sua que podesse explicar a frieza das relações; não achando nada, suppoz alguma intriga. E suppoz mal, pois foi um simples esquecimento. D. Benedicta, no dia do consorcio, de manhã, teve ideia de que D. Maria dos Anjos não recebera participação.