—Hade haver.
Na rua, Eulalia observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes; e, sabendo-se que ella não desejava ir para o Norte nem para o Sul, salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da vespera, hade suppor-se que a reflexão da moça era profundamente machiavelica. Não digo que não. D. Benedicta, entretanto, noticiou a viagem aos amigos e conhecidos, nenhum dos quaes a ouviu espantado. Um chegou a perguntar-lhe se, enfim, daquella vez era certo. D. Maria dos Anjos, que sabia da viagem pelo conego, se alguma cousa a assombrou, quando a amiga se despediu della, foram as attitudes geladas, o olhar fixo no chão, o silencio, a indifferença. Uma visita de dez minutos apenas, durante os quaes D. Benedicta disse quatro palavras no principio: Vamos para o Norte. E duas no fim:—Passe bem. E os beijos? Dous tristes beijos de pessoa morta.
[IV]
A viagem não se fez por um motivo supersticioso. D. Benedicta, no domingo á noute, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e achou que o dia era máu. Iriam no outro paquete. Não foram no outro; mas desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano, e o melhor alvitre em taes casos é não teimar com o impenetravel. A verdade é que D. Benedicta não foi, mas iria no terceiro paquete, a não ser um incidente que lhe trocou os planos.
Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A nova amizade era uma familia do Andarahy; a festa não se sabe a que proposito foi, mas deve ter sido explendida, porque D. Benedicta ainda fallava della tres dias depois. Tres dias! Realmente, era demais. Quanto á familia, era impossivel ser mais amavel; ao menos, a impressão que deixou na alma de D. Benedicta foi intensissima. Uso este superlativo, porque ella mesma o empregou: é um documento humano.
—Aquella gente? Oh! deixou-me uma impressão intensissima.
E toca a andar para Andarahy, namorada de D. Petronilha, esposa do conselheiro Beltrão, e de uma irmã della, D. Maricota, que ia casar com um official de marinha, irmão de outro oflicial de marinha, cujos bigodes, olhos, cara, porte, cabellos, são os mesmos do retrato qu e o leitor entreviu ha tempos na gavetinha de Eulalia. A irmã casada tinha trinta e dous annos, e uma seriedade, umas maneiras tão bonitas, que deixaram encantada a esposa do desembargador. Quanto á irmã solteira era uma flor, uma flor de cera, outra expressão de D. Benedicta, que não altero com receio de entibiar a verdade.
Um dos pontos mais obscuros desta curiosa historia é a pressa com que as relações se travaram, e os acontecimentos se succederam. Por exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andarahy, com D. Benedicta, foi o official de marinha retratado no cartão particular de Eulalia, 1o tenente Mascarenhas, que o conselheiro Beltrão proclamou futuro almirante. Vede, porém, a perfídia do official: vinha fardado; e D. Benedicta, que amava os expectaculos novos, achou-o tão distincto, tão bonito, entre os outros moços á paisana, que o preferiu a todos, e lh'o disse. O official agradeceu commovido. Ella offereceu-lhe a casa; elle pediu-lhe licença para fazer uma visita.
—Uma visita? Vá jantar comnosco.
Mascarenhas fez uma cortezia de acquiescencia.