Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer; descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau, não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.
Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura, descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém, costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles, taes como—ouro da verdade e sol do pensamento,—contou-lhe este o que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço:—Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás casas do bonzo, e accrescentou:—Dizem que elle não a confia a nenhuma pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.
No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo, por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que alçou a voz para confial-a e explical-a.
Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.
N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E continuou dizendo:—Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que, se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado, o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas capazes de dar a vida por elles.
Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo, compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe era em extremo agradavel.
Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina.
Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma, obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor esquina que este papel, chamado pela nossa lingua Vida e claridade das cousas mundanas e celestes, titulo expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora; emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de Bungo.
A leitura d'esta noticia commoveu naturalmente a toda a cidade Fucheo, não se fallando em outra cousa durante toda aquella semana. As alparcas de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não deixou elle de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e extraordinarias anedoctas ácerca da sua mercadoria. E dizia-nos com muita graça:—Vêde que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não estou persuadido da superioridade das taes alparcas, antes as tenho por obra vulgar, mas fil-o crer ao povo, que as vem comprar agora, pelo preço que lhes taxo. Não me parece, atalhei, que tenhaes cumprido a doutrina em seu rigor e substancia, pois não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuimos; este é, ao certo, o essencial d'ella.
Dito isto, assentaram os dous que era a minha vez de tentar a experiencia, o que immediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas as suas partes, por não demorar a narração da experiencia de Diogo Meirelles, que foi a mais decisiva das tres, e a melhor prova d'esta deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que tinha de musica e charamella, em que aliás era mediano, lembrou-me congregar os principaes de Fucheo para que me ouvissem tanger o instrumento; os quaes vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca antes tinham ouvido cousa tão extraordinaria. E confesso que alcancei um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os braços para tomar a charamella, que me foi trazida em uma bandeja de prata, da rigidez do busto, da uncção com que alcei os olhos ao ar, e do desdem e ufania com que os baixei á mesma assembléa, a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de enthusiasmo, que quasi me persuadiu do meu merecimento.