Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiencias, foi a de Diogo Meirelles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Comquanto os physicos da terra propuzessem extrahir os narizes inchados, para allivio e melhoria dos enfermos, nenhum d'estes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso á lacuna, e tendo por mais aborrecivel que nenhuma outra cousa a ausencia daquelle orgão. N'este apertado lance mais de um recorria á morte voluntaria, como um remedio, e a tristeza era muita em toda a cidade Fucheo. Diogo Meirelles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atraz, estudou a molestia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrificio. Então occorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos physicos, philosophos, bonzos, autoridades e povo, communicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o orgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metaphysica, isto é, inacessivel aos sentidos humanos, e comtudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por elle em varias partes, e muito aceita aos physicos de Malabar. O assombro da assembléa foi immenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metaphysica do nariz, cedia entretanto á energia das palavras de Diogo Meirelles, ao tom alto e convencido com que elle expoz e definiu o sem remedio. Foi então que alguns philosophos, alli presentes, um tanto envergonhados do saber de Diogo Meirelles, não quizeram ficar-lhe atraz, e declararam que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem todo outra cousa mais do que um producto da idealidade transcendental; donde resultava que podia trazer, com toda a verosimilhança, um nariz metaphysico, e juravam ao povo que o effeito era o mesmo.

A assembléa acclamou a Diogo Meirelles; e os doentes começaram de buscal-o, em tanta copia, que elle não tinha mãos a medir. Diogo Meirelles desnarigava-os com muitissima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e applicava-o ao logar vasio. Os enfermos, assim curados e suppridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do orgão cortado; mas, certos e certissimos de que alli estava o orgão substituto, e que este era inacessivel aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus officios. Nenhuma outra prova quero da efficacia da doutrina e do fructo d'esse experiencia, senão o facto de que todos os desnarigados de Diogo Meirelles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo relatado para gloria do bonzo e beneficio do mundo.


[1]Como se terá visto, não ha aqui um simples pastiche, nem esta imitação foi feita com o fim de provar forças, trabalho que, se fosse só isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possivel realidade á invenção, collocal-a a distancia grande, no espaço e no tempo; e para tornar a narração sincera, nada me pareceu melhor do que attribuil-a ao viajante escriptor que tantas maravilhas disse. Para os curiosos accrescentarei que as palavras: Atraz deixei narrado o que se passou nesta cidade Fucheo,—foram escriptas com o fim de suppor o capitulo intercalado nas Peregrinações, entre os caps. CCXIII e CCXIV.

O bonzo do meu escripto chama-se Pomada, e pomadistas os seus sectarios. Pomada e pomadista são locuções familiares da nossa terra: é o nome local do charlatão e do charlatanismo.

FIM DO SEGREDO DO BONZO



[O ANNEL DE POLYCRATES]

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