Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier. Aceite o meu braço, e vamos andando. Vai para a Praça? Vamos juntos. Um caso interessantissimo. Foi alli por 1869 ou 70, não me recordo; elle mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cerebro gasto, chupado, esteril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora,—«uma bonita rosa»; fallava do luar saudoso, do sacerdocio da imprensa, dos jantares opiparos, sem accrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começára a ficar hypocondriaco; e, um dia, estando á janella, triste, desabusado das cousas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavallo. De repente, o cavallo corcoveou, e o taful veiu quasi ao chão; mas sustentou-se, e metteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, elle teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavallo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavalleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavalleiro não tivesse animo nenhum; não quiz cahir diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavallo. E d'ahi veiu uma idéa: comparou a vida a um cavallo chucro ou manhoso; e accrescentou sentenciosamente: Quem não fôr cavalleiro, que o pareça. Realmente, não era uma idéa extraordinaria; mas a penuria do Xavier tocara a tal extremo, que esse crystal pareceu-lhe um diamante. Elle repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de varios modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como casa de pobre em dia de perú. De noite, sonhou que effectivamente montava um cavallo manhoso, que este pinoteava com elle e o sacudia a um brejo. Accordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; metteu-se a lêr e a scismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do annel de Polycrates?

Z

Francamente, não.

A

Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier. Potycrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a receiar alguma viravolta da Fortuna, e, para applacal-a antecipadamente, determinou fazer um grande sacrificio: deitar ao mar o annel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulal-o de obsequios, que o annel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou á posse do annel. Não affirmo nada a respeito d'esta anedocta; foi elle quem me contou, citando Plinio, citando...

Z

Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavallo, mas...

A

Nada d'isso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambotico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse elle; vejamos se a minha idéa, lançada ao mar, póde tornar ao meu poder, como o annel de Polycrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão.

Z