Ora essa!
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Não é estrambotico? Polycrates experimentára a felicidade; o Xavier quiz tentar o caiporismo; intenções diversas, acção indentica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assumpto, e acabou dizendo o que era a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e quem não fôr cavalleiro que o pareça. Dita assim, esta phrase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos annos, o mallogro dos esforços, ou antes os effeitos da imprevidencia, e quando o peixe ficou de bocca aberta, digo, quando a commoção do amigo chegou ao cume, foi que elle lhe atirou o annel, e fugiu a metter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossivel; mas agora começa a juntar-se á realidade uma alta dóse de imaginação. Seja o que fôr, repito o que elle me disse. Cerca de tres semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma phrase sua, talvez com a troca de um adjectivo. «Meu pobre annel, disse elle, eis-te emfim no peixe de Polycrates.» Mas a idéa bateu as azas e voou, sem que elle pudesse guardal-a na memoria. Resignou-se. Dias depois, foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distincção nobiliaria. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira de barão, a sua vida prospera, rigida, modelo, ouviu comparar o barão a um cavalleiro emerito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavallo. Mas o panegyrista explicou que a vida não é mais do que um cavallo chucro ou manhoso, sobre o qual ou se ha de ser cavalleiro ou parecel-o, e o barão era-o excellente. «—Entra, meu querido annel, disse o Xavier, entra no dedo de Polycrates.» Mas de novo a idéa bateu as azas, sem querer ouvil-o. Dias depois...
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Adivinho o resto: uma serie de encontros e fugas do mesmo genero.
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Justo.
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Mas, emfim, apanhou-o um dia.
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