—Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma cousa muito modesta.
—Quinhentos mil réis?
—Não; não posso.
—Nem quinhentos mil réis?
—Nem isso, replicou firme o tabellião. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com ellas no bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está empregado?
—Não, senhor.
—Olhe; dou-lhe cousa melhor do que quinhentos mil réis; fallarei ao ministro da justiça, tenho relações com elle, e...
Custodio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial é que elle teimou na supplica. Não podia dar quinhentos mil réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não para a empreza, pois adoptava o conselho dos amigos: ia recusal-a. Os duzentos mil réis, visto que o tabellião estava disposto a ajudal-o, eram para uma necessidade urgente,—«tapar um buraco.» E então relatou tudo, respondeu á franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empreza, tivera em mente acudir tambem a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram duzentos e poucos mil réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...
—Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, emfim, nem os duzentos mil réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão acima das minhas forças n'esta occasião. N'outra póde ser, e não tenho duvida, mas agora...
—Não imagina os apuros em que estou!