—Nem cem, repito. Tenho tido muitas difficuldades n'estes ultimos tempos. Sociedades, subscripções, maçonaria... Custa-lhe crêr, não é? Naturalmente: um proprietario. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos, os concertos, as pennas d'agua, as decimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde vai a maior parte da agua...

—Tivesse eu um pote! suspirou Custodio.

—Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados, despezas, e até credores... Creia o senhor que tambem eu tenho credores.

—Nem cem mil réis!

—Nem cem mil réis, peza-me dizel-o, mas é a verdade. Nem cem mil réis. Que horas são?

Levantou-se, e veiu ao meio da sala. Custodio veiu tambem, arrastado, desesperado. Não podia acabar de crer que o tabellião não tivesse ao menos cem mil réis. Quem é que não tem cem mil réis consigo? Cogitou uma scena pathetica, mas o cartorio abria para a rua; seria ridiculo. Olhou para fóra. Na loja fronteira, um sujeito apreçava uma sobrecasaca, á porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguez examinava o panno com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o paletó que trazia. Mas nem cincoenta mil réis podia dar-lhe o tabellião. Custodio sorriu;—não de desdem, não de raiva, mas de amargura e duvida; era impossivel que elle não tivesse cincoenta mil réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo; tudo mentira.

Custodio tirou o lenço, alisou a chapéu devagarinho; depois guardou o lenço, concertou a gravata, com um ar mixto de esperança e despeito. Viera cerceando as azas á ambição, pluma a pluma; restava ainda uma pennugem curta e fina, que lhe mettia umas velleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relogio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaciencia e fastio. Estavam a pingar as cinco; deram, emfim, e o tabellião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira... Oh! a carteira! Custodio viu esse utensilio problematico, apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira, quiz ser algibeira, quiz ser o couro, a materia mesma do precioso receptaculo. Lá vae ella; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabellião abotoou-se. Nem vinte mil réis! Era impossivel que não levasse alli vinte mil réis, pensava elle; não diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...

—Prompto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.

Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabellião, um convite ao menos, para jantar; nada; findára tudo. Mas os momentos supremos pedem energias supremas. Custodio sentiu toda força d'este logar-commum, e, subito, como um tiro, perguntou ao tabellião se não lhe podia dar ao menos dez mil réis.

—Quer ver?