Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FIL. ELIS.
Quando a noturna sombra envolve a terra
E á paz convida o lavrador cansado,
Á fresca brisa o seio delicado
A branca flôr do embiroçú descerra.
E das limpidas lagrimas que chora
A noite amiga, ella recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, á luz nascente, a flôr modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o somno quando tudo é festa.
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a aza impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Tambem ella ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ella da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio ás ilusões viçosas.
É tudo seu,—tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrellas;
Abrazada de amor, palpita ao vel-as,
E a todas cinge no ideal abraço.
O rosto não encara indifferente,
Nem a traidora mão candida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua aza amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flôr que desabrocha á hora
Em que o ultimo olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, recende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
[LUA NOVA][26]
Mãe dos fructos, Jacy, no alto espaço
Eil-a assoma serena e indecisa:
Sopro é della esta languida brisa
Que sussurra na terra e no mar.
Não se mira nas aguas do rio,
Nem as ervas do campo branqueia;
Vaga e incerta ella vem, como a ideia
Que inda apenas começa a espontar.
E iam todos; guerreiros, donzellas,
Velhos, moços, as redes deixavam;
Rudes gritos na aldeia soavam,
Vivos olhos fugiam p'ra o céu:
Iam ve-la, Jacy, mãe dos fructos,
Que, entre um grupo de brancas estrellas,
Mal scintila: nem póde vencel-as,
Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.
E um guerreiro: «Jacy, doce amada,
Retempera-me as forças; não veja
Olho adverso, na dura peleja,
Este braço já frouxo cair.
Vibre a setta, que ao longe derruba
Tajassú, que roncando caminha;
Nem lhe escape serpente damninha,
Nem lhe fuja pesado tapir.»
E uma virgem: «Jacy, doce amada,
Dobra os galhos, carrega esses ramos
Do arvoredo co'as frutas que damos
Aos valentes guerreiros, que eu vou
A buscal-os na mata sombria,
Por trazel-os ao moço prudente,
Que venceu tanta guerra valente,
E estes olhos consigo levou.»
E um ancião, que a saudara ja muitos,
Muitos dias: «Jacy, doce amada,
Dá que seja mais longa a jornada,
Dá que eu possa saudar-te o nascer,
Quando o filho do filho, que hei visto
Triumphar de inimigo execrando,
Possa as pontas de um arco dobrando
Contra os arcos contrarios vencer.»
E elles riam os fortes guerreiros,
E as donzelas e esposas cantavam,
E eram risos que d'alma brotavam,
E eram cantos de paz e de amor.
Rude peito criado nas brenhas,
—Rude embora,—terreno é propicio;
Que onde o germen lançou beneficio
Brota, enfolha, verdeja, abre em flôr.
[SABINA]
Sabina era mucama da fazenda;
Vinte annos tinha; e na provincia toda
Não havia mestiça mais á moda,
Com suas roupas de cambraia e renda.
Captiva, não entrava na senzala,
Nem tinha mãos para trabalho rude;
Desbrochava-lhe a sua juventude
Entre carinhos e affeições de sala.
Era cria da casa. A sinhá moça,
Que com ella brincou sendo menina,
Sobre todas amava esta Sabina,
Com esse ingenuo e puro amor da roça.
Dizem que á noite, a suspirar na cama,
Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia,
Um hospede que alli passado havia,
Poz um cordão no collo da mucama.
Mas que vale uma joia no pescoço?
Não pôde haver o coração da bella.
Se alguem lhe acende os olhos de gazella,
É pessoa maior: é o senhor moço.
Ora, Octavio cursava a Academia.
Era um lindo rapaz; a mesma edade
Co'as passageiras flôres o adornava
De cujo extincto aroma inda a memoria
Vive na tarde pallida do outomno.
Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas
Da primeira estação, porque tão cedo
Voaes de nós? Pudesse ao menos a alma
Guardar comsigo as illusões primeiras,
Virgindade sem preço, que não paga
Essa descolorida, árida e sêcca
Experiencia do homem!
Vinte annos
Tinha Octavio, e a belleza e um ar de corte,
E o gesto nobre, e seductor o aspecto;
Um vero Adonis, como aqui diria
Algum poeta classico, d'aquella
Poesia que foi nobre, airosa e grande
Em tempos idos, que ainda bem se foram...
Cursava a Academia o moço Octavio;
Ia no anno terceiro, não remoto
Via desenrolar-se o pergaminho,
Premio de seus labores e fadigas;
E uma vez bacharel, via mais longe
Os curvos braços da feliz cadeira
D'onde o legislador a redea empunha
Dos lepidos frisões do Estado. Emtanto,
Sobre os livros de estudo, gota a gota
As horas despendia, e trabalhava
Por metter na cabeça o jus romano
E o patrio jus. Nas suspiradas ferias
Volvia ao lar paterno; ali no dorso
De brioso corsel corria os campos,
Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado,
Á caça dos veados e cotias,
Ia matando o tempo. Algumas vezes
Com o padre vigario se entretinha
Em desfiar um ponto de intrincada
Philosophia, que o senhor de engenho,
Feliz pae, escutava glorioso,
Como a rever-se no brilhante aspecto
De suas ricas esperanças.
Era
Manhã de estio; erguera-se do leito
Octavio; em quatro sorvos toda esgota
A taça de café. Chapeo de palha,
E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra,
Passarinhar no mato. Ia costeando
O arvoredo que além beirava o rio,
A passo curto, e o pensamento á larga,
Como leve andorinha que saísse
Do ninho, a respirar o hausto primeiro
Da manhã. Pela aberta da folhagem,
Que inda não doura o sol, uma figura
Deliciosa, um busto sobre as ondas
Suspende o caçador. Mãe d'água fôra,
Talvez, se a cor de seus quebrados olhos
Imitasse a do céu; se a tez morena,
Morena como a esposa dos Cantares,
Alva tivesse; e raios de ouro fossem
Os cabellos da cor da noite escura,
Que ali soltos e humidos lhe caem,
Como um véu sobre o collo. Trigueirinha,
Cabello negro, os largos olhos brandos
Cor de jaboticaba, quem seria,
Quem, senão a mucama da fazenda,
Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio,
E n'ella os olhos espantados fita
Que desejos accendem.—Mal cuidando
D'aquelle extranho curioso, a virgem
Com os ligeiros braços rompe as aguas,
E ora toda se esconde, ora ergue o busto,
Talhado pela mão da natureza
Sobre o modelo classico. Na opposta
Riba suspira um passarinho; e o canto
E a meia luz, e o sussurrar das aguas,
E aquella fada ali, tão doce vida
Davam ao quadro, que o ardente alumno
Trocára por aquillo, uma hora ao menos,
A Faculdade, o pergaminho e o resto.
Subito erige o corpo a ingenua virgem;
Com as mãos, os cabellos sobre a espadua
Deita, e rasgando lentamente as ondas,
Para a margem caminha, tão serena,
Tão livre como quem de extranhos olhos
Não suspeita a cubiça... Véu da noite,
Se lh'os cobrira, dissipára acaso
Uma historia de lagrimas. Não póde
Furtar-se Octavio á commoção que o toma;
A clavina que a esquerda mal sustenta
No chão lhe cae; e o baque surdo accorda
A descuidada nadadora. Ás ondas
A virgem torna. Rompe Octavio o espaço
Que os divide; e de pé, na fina areia,
Que o molle rio lambe, erecto e firme,
Todo se lhe descobre. Um grito apenas
Um só grito, mas unico, lhe rompe
Do coração; terror, vergonha... e acaso
Prazer, prazer mysterioso e vivo
De captiva que amou silenciosa,
E que ama e vê o objecto de seus sonhos,
Ali com ella, a suspirar por ella.
«Flôr da roça nascida ao pé do rio,
Octavio começou—talvez mais bella
Que essas bellezas cultas da cidade,
Tão cobertas de joias e de sedas,
Oh! não me negues teu suave aroma!
Fez-te captiva o berço; a lei somente
Os grilhões te lançou; no livre peito
De teus senhores tens a liberdade,
A melhor liberdade, o puro affecto
Que te elegeu entre as demais captivas,
E de affagos te cobre! Flôr do matto,
Mais viçosa do que essas outras flôres
Nas estufas criadas e nas salas,
Rosa agreste nascida ao pé do rio,
Oh! não me negues teu suave aroma!»
Disse, e da riba os cubiçosos olhos
Pelas aguas estende, emquanto os d'ella,
Cobertos pelas palpebras medrosas
Choram,—de gosto e de vergonha a um tempo
Duas unicas lagrimas. O rio
No seio as recebeu; comsigo as leva,
Como gottas de chuva, indifferente
Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;
Que assim a natureza, ingenua e docil
Ás leis do Creador, perpétua segue
Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem
Padecer e saber que sente e morre.
Pela azulada esphera inda trez vezes
A aurora as flôres derramou, e a noite
Vezes trez a mantilha escura e larga
Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora,
Anjo das virgens, anjo de azas brancas,
Pudor, onde te foste? A alva capella
Murcha e desfeita pelo chão lançada,
Coberta a face do rubor do pejo,
Os olhos com as mãos velando, alçaste
Para a Eterna Pureza o eterno voo.
Quem ao tempo cortar pudera as azas
Se deleitoso voa? Quem pudera
Suster a hora abençoada e curta
Da ventura que foge, e sobre a terra
O gozo transportar da eternidade?
Sabina viu correr tecidos de ouro
Aqueles dias unicos na vida
Toda enlevo e paixão, sincera e ardente
Nesse primeiro amor d'alma que nasce
E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,
Consciencia; razão, tu lhe fechavas
A vista interior; e ella seguia
Ao sabor dessas horas mal furtadas
Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o
O fundo abysmo tenebroso e largo
Que a separa do eleito de seus sonhos,
Nem pressentir a brevidade e a morte!
E com que olhos de pena e de saudade
Viu ir-se um dia pela estrada fóra
Octavio! Aos livros torna o moço alumno,
Não cabisbaixo e triste, mas sereno
E lepido. Com ella a alma não fica
De seu jovem senhor. Lagrima pura,
Muito embora de escrava, pela face
Lentamente lhe rola, e lentamente
Toda se esvae num pallido sorriso
De mãe.
Sabina é mãe; o sangue livre
Gira e palpita no captivo seio
E lhe paga de sobra as dores cruas
Da longa ausencia. Uma por uma, as horas
Na solidão do campo há de contal-as,
E suspirar pelo remoto dia
Em que o veja de novo... Pouco importa,
Se o materno sentir compensa os males.
Riem-se della as outras; é seu nome
O assunto do terreiro. Uma invejosa
Acha-lhe uns certos modos singulares
De senhora de engenho; um pajem moço,
De cobiça e ciume devorado,
Desfaz nas graças que em silencio adora
E consigo medita uma vingança.
Entre os parceiros, desfiando a palha
Com que entrança um chapeo, solenemente
Um Caçanje ancião refere aos outros
Alguns casos que viu na mocidade
De captivas amadas e orgulhosas
Castigadas do céu por seus pecados,
Mortas entre os grilhões do captiveiro.
Assim falavam elles; tal o aresto
Da opinião. Quem evitá-lo póde
Entre os seus, por mais baixo que a fortuna
Haja tecido o berço? Assim falavam
Os captivos do engenho; e porventura
Sabina o soube e o perdoou.
Volveram
Após os dias da saudade os dias
Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa
Que o coração do moço, tão voluvel
Como a brisa que passa ou como as ondas,
Nos cabellos castanhos se prendesse
De donzella gentil, com quem atára
O laço conjugal: uma belleza
Pura, como o primeiro olhar da vida,
Uma flôr desbrochada em seus quinze annos,
Que o moço viu n'um dos serões da corte
E captivo adorou. Que há de fazer-lhes
Agora o pae? Abençoar os noivos
E ao regaço trazel-os da familia.
Oh! longa foi, longa e ruidosa a festa
Da fazenda, por onde alegre entrára
O moço Octavio conduzindo a esposa.
Viu-os chegar Sabina, os olhos secos,
Attonita e pasmada. Breve o instante
Da vista foi. Rapido foge. A noite
A seu tremulo pé não tolhe a marcha;
Voa, não corre, ao malfadado rio,
Onde a voz escutou do amado moço.
Ali chegando: «Morrerá comigo.
O fruto de meu seio; a luz da terra
Seus olhos não verão; nem ar da vida
Hade aspirar...»
Ia a cair nas aguas,
Quando subito horror lhe toma o corpo;
Gelado o sangue e tremula recúa,
Vacilla e tomba sobre a relva. A morte
Em vão a chama e lhe fascina a vista;
Vence o instincto de mãe. Erma e calada
Ali ficou. Viu-a jazer a lua
Largo espaço da noite ao pé das aguas,
E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros;
Nenhum deles, comtudo, o disse á aurora.