[ULTIMA JORNADA][27]

I

E ella se foi n'esse clarão primeiro,
Aquella esposa misera e ditosa;
E elle se foi o perfido guerreiro.
Ella serena ia subindo e airosa,
Elle á força de incognitos pesares
Dobra a cerviz rebelde e luctuosa.
Iam assim, iam cortando os ares,
Deixando embaixo as fertiles campinas,
E as florestas, e os rios e os palmares.
Oh! candidas lembranças infantinas!
Oh! vida alegre da primeira taba;
Que aurora vos tomou, aves divinas?
Como um tronco do matto que desaba,
Tudo caiu; lei barbara e funesta:
O mesmo instante cria e o mesmo acaba.
De esperanças tamanhas o que resta?
Uma historia, uma lagrima chorada
Sobre as ultimas ramas da floresta.
A flôr do ipê a viu brotar maguada,
E talvez a guardou no seio amigo,
Como lembrança da estação passada.
Agora os dois, deixando o bosque antigo,
E as campinas, e os rios e os palmares,
Para subir ao derradeiro abrigo,
Iam cortando lentamente os ares.

II

E elle clamava á moça que ascendia;
«—Oh! tu que a doce luz eterna levas,
E vais viver na região do dia,
«Vê como rasgam barbaras e sevas
As tristezas mortaes ao que se afunda
Quasi na fria região das trevas!
«Olha esse sol que a criação inunda!
Oh quanta luz, oh! quanta doce vida
Deixar-me vae na escuridão profunda!
«Tu ao menos perdoa-me, querida!
Suave esposa, que eu ganhei roubando,
Perdida agora para mim, perdida!
Ao maldito na morte, ao miserando,
Que mais lhe resta em sua noite impura?
Sequer allivio ao coração nefando.
«Nos olhos trago a tua morte escura.
Foi meu odio cruel que há decepado,
Ainda em flôr, a tua formosura.
«Mensageiro de paz, era enviado
Um dia á taba de teus pais, um dia
Que melhor fôra se não fôra nado.
Ali te vi; ali, entre a alegria
De teus fortes guerreiros e donzellas,
Teu doce rosto para mim sorria.
«A mais bella eras tu entre as mais bellas,
Como no céu a creadora lua
Vence na luz as vívidas estrellas.
«Gentil nasceste por desgraça tua;
Eu covarde nasci; tu me seguiste;
E ardeu a guerra desabrida e crua.
«Um dia o rosto carregado e triste
Á taba de teus pais volveste, o rosto
Com que alegre e feliz d'ali fugiste.
«Tinha expirado o passageiro gosto,
Ou o sangue dos teus, correndo a fio,
Em teu seio outro affecto havia posto.
«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,
Ias-te agora leve e descuidada,
Como folha que o vento entrega ao rio.
«Oh! corça minha fugitiva e amada!
Anhangá te guiou por mau caminho,
E a morte poz na minha mão fechada.
«Feriu-me da vingança agudo espinho;
E fiz-te padecer tão cruas penas,
Que inda me doe o coração mesquinho.
«Ao contemplar aquellas tristes scenas
As aves, de piedosas e sentidas,
Chorando foram sacudindo as pennas.
«Não viu o cedro ali correr perdidas
Lagrimas de materno amado seio;
Viu somente morrer a flôr das vidas.
«O que mais houve da floresta em meio
O sinistro expectaculo, de certo
Nenhum estranho contemplal-o veio.
«Mas, se alguem penetrasse no deserto,
Vira cair pesadamente a massa
Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,
«Como se fôra derramada taça
Pela terra jazer, ali chamando
O feio grasno do urubú que passa.
«Em vão a arma do golpe irão buscando,
Nenhuma houve; nem guerreiro ousado
A tua morte ali foi castigando.
«Talvez, talvez Tupan, desconsolado,
A pena contemplou maior do que era
O delicto; e de colera tomado,
«Ao mais alto dos Andes estendera
O forte braço, e da arvore mais forte
A setta e o arco vingador colhêra;
«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte
Que o junco dobra, sussurrando o vento,
E de um só tiro lhe enviou a morte.”
Ia assim suspirando este lamento,
Quando subitamente a voz lhe cala,
Como se a dor lhe suffocára o alento.
No ar se perdêra a lastimosa falla,
E o infeliz, condenado á noite escura,
Os dentes range e treme de encontral-a.
Leva os olhos na viva aurora pura
Em que vê penetrar, já longe, aquella
Doce, mimosa, virginal figura.
Assim no campo a timida gazella
Foge e se perde; assim no azul dos mares
Some-se e morre fugidia vela.
E nada mais se viu fluctuar nos ares;
Que elle, bebendo as lagrimas que chora,
Na noite entrou dos immortaes pesares,
E ella de todo mergulhou na aurora.


[OS ORISES][28]

(Fragmento)

I

Nunca as armas christans, nem do Evangelho
O lume criador, nem frecha extranha
O valle penetraram dos guerreiros
Que, entre serros altissimos sentado,
Orgulhoso descança. Unico o vento,
Quando as azas desprega impetuoso,
Os campos varre e as selvas estremece,
Um pouco leva, ao recatado asylo,
Da poeira da terra. Acaso o raio
Alguma vez nos asperos penedos,
Com fogo escreve a assolação e o susto.
Mas olhos de homem, não; mas braço affeito
A pleitear na guerra, a abrir ousado
Caminho entre a espessura da floresta,
Não affrontára nunca os atrevidos
Muros que a natureza a pino erguêra
Como eterna atalaia.