II

Um povo indocil
Nessas brenhas achou ditosa patria,
Livre, como o rebelde pensamento
Que ímpia força não doma, e airoso volve
Inteiro á eternidade. Guerra longa
E porfiosa os adestrou nas armas;
Rudes são nos costumes mais que quantos
Ha criado este sol, quantos na guerra
O tacape meneiam vigoroso.
Só nas festas de plumas se ataviam
Ou na pelle do tigre o corpo envolvem,
Que o sol queimou, que a rispidez do inverno
Endureceu como os robustos troncos
Que só verga o tufão. Tecer não usam
A preguiçosa rede em que se embale
O corpo fatigado do guerreiro,
Nem as tabas erguer como outros povos;
Mas á sombra das arvores antigas,
Ou nas medonhas cavas dos rochedos,
No duro chão, sobre mofinas ervas,
Acham somno de paz, jamais tolhido
De ambições, de remorsos. Indomavel
Essa terra não é; prompto lhes volve
O semeado pão; vecejam flôres
Com que a rudez tempera a extensa matta,
E o fructo pende dos curvados ramos
Do arvoredo. Harta messe do homem rude,
Que tem na ponta da farpada setta
O pesado tapir, que lhes não foge,
Nhandu, que á flôr de terra inquieto voa,
Sobejo pasto, e deleitoso e puro
Da selvagem nação. Nunca vaidade
De seu nome souberam, mas a força,
Mas a destreza do provado braço
Os foros são do imperio a que hão sugeito
Todo aquelle sertão. Murmuram longe,
Contra elles, as gentes debelladas
Vingança e odio. Os ecos repetiram
Muita vez a pocema de combate;
Nuvens e nuvens de afiadas settas
Todo o ar cobriram; mas o extremo grito
Da victoria final só delles fôra.

III

Despem armas de guerra; a paz os chama
E o seu barbaro rito. Alveja perto
O dia em que primeiro a voz levante
A ave sagrada, o nume de seus bosques,
Que de agouro chamamos, Cupuaba
Melancholica e feia, mas ditosa
E benefica entre eles. Não se curvam[29]
Ao nome de Tupan, que a noite e o dia
No céu reparte, e ao rispido guerreiro
Guarda os sonhos do Ybake e eternas danças.
Seu deus unico é ella, a bemfazeja
Ave amada, que os campos despovoa
Das venenosas serpes,—viva imagem
Do tempo vingador, lento e seguro,
Que as calumnias, a inveja e o odio apagam,
E ao conspurcado nome o alvor primeiro
Restitue. Uso é delles celebrar-lhe
Com festas o primeiro e o extremo canto.

IV

Terminára o cruento sacrificio.
Ensopa o chão da dilatada selva
Sangue de caitetus, que o pio intento
Largos mezes cevou; barbara usança
Tambem de alheios climas. As donzellas,
Mal sahidas da infancia, inda embebidas
Nos ledos jogos de primeira edade,
Ao brutal sacrificio... Oh! cala, esconde,
Labio christão, mais barbaro costume.

V

Agora a dansa, agora alegres vinhos,
Trez dias ha que de inimigos povos
Esquecidos os trazem. Sobre um tronco
Sentado o chefe, carregado o rosto,
Inquieto o olhar, o gesto pensativo,
Como alheio ao prazer, de quando em quando
Á multidão dos seus a vista alonga,
E um rugido no peito lhe murmura.
Quem a fronte enrugara do guerreiro?
Inimigo não foi, que o medo nunca
O sangue lhe esfriou, nem vão receio
Da batalha futura o desenlace
Lhe fez incerto. Intrepidos como elle
Poucos vira este céu. Seu forte braço,
Quando vibra o tacape nas pelejas,
De rasgados cadaveres o campo
Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,
Como um grito de morte a voz lhe soa.
Nem só nas gentes o terror infunde;
É fama que em seus olhos cor da noite,
Inda creança, um genio lhe deixara
Mysteriosa luz, que as forças quebra
Da onça e do jaguar. Certo é que um dia
(A tribu o conta, e seus pagés o juram)
Um dia em que, do filho acompanhado,
Ia costeando a orla da floresta,
Um possante jaguar, escancarando
A bocca, em frente do famoso chefe
Estacára. De longe um grito surdo
Solta o jovem guerreiro; logo a setta
Embebe no arco, e o tiro sibilante
Ia já disparar, quando de assombro
A mão lhe afrouxa a distendida corda.
A fera o colo timida abatêra,
Sem ousar despregar os fulvos olhos
Dos olhos do inimigo. Ureth ousado
Arco e frechas atira para longe,
A massa empunha, e lento, e lento avança;
Trez vezes volteando a arma terrivel,
Enfim despede o golpe; um grito apenas
Unico atroa o solitario campo,
E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.


[OCCIDENTAES]