[O DESFECHO]
Prometheu sacudiu os braços manietados
E supplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos seculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um billião,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Subito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a aguia em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a viscera do heroe,
Que a immensa ave do céu perpetuamente roe,
Deixou de renascer ás raivas que a consomem.
Uma invisivel mão as cadeias dilue;
Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto rue;
Acabára o supplicio e acabára o homem.
[CIRCULO VICIOSO]
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
—«Quem me dera que fosse aquella loura estrella,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!»
Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:
—«Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega columna á gothica janella,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!»
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
—«Misera! tivesse eu aquella enorme, aquella
Claridade immortal, que toda a luz resume!»
Mas o sol, inclinando a rutila capella:
—«Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbella...
Por que não nasci eu um simples vagalume?»
[UMA CREATURA]
Sei de uma creatura antiga e formidavel,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciavel.
Habita juntamente os valles e as montanhas;
E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo,
Espreguiça-se toda em convulsões extranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o bello e o monstruoso.
Para ella o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbavel, como
Pelo vasto areal um vasto paquyderme.
Na arvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flôr, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o polluto e o impolluto;
Começa e recomeça uma perpetua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.