Sabes tu de um poeta enorme
Que andar não usa
No chão, e cuja estranha musa,
Que nunca dorme,
Calça o pé, melindroso e leve,
Como uma pluma,
De folha e flôr, de sol e neve,
Crystal e espuma;
E mergulha, como Leandro,
A fórma rara
No Pó, no Sena, em Guanabara
E no Scamandro;
Ouve a Tupan e escuta a Momo,
Sem controversia,
E tanto ama o trabalho, como
Adora a inercia;
Ora do fuste, ora da ogiva,
Sair parece;
Ora o Deus do occidente esquece
Pelo deus Siva;
Gosta do estrepito infinito,
Gosta das longas
Solidões em que se ouve o grito
Das arapongas;
E, se ama o lepido besouro,
Que zumbe, zumbe,
E a mariposa que succumbe
Na flamma de ouro,
Vagalumes e borboletas,
Da côr da chamma,
Roxas, brancas, rajadas, pretas,
Não menos ama
Os hippopotamos tranquillos,
E os elephantes,
E mais os bufalos nadantes
E os crocodilos,
Como as girafas e as pantheras,
Onças, condores,
Toda a casta de bestas feras
E voadores.
Se não sabes quem elle seja
Trepa de um salto,
Azul acima, onde mais alto
A aguia negreja;
Onde morre o clamor iniquo
Dos violentos,
Onde não chega o riso obliquo
Dos fraudulentos;
Então, olha de cima posto
Para o oceano,
Verás n'um longo rosto humano
Teu proprio rosto.
E has de rir, não do riso antigo,
Potente e largo,
Riso de eterno moço amigo,
Mas de outro amargo,
Como o riso de um deus enfermo
Que se aborrece
Da divindade, e que apetece
Tambem um termo...
[MUNDO INTERIOR]
Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol á infima luzerna.
Ouço que a natureza,—a natureza externa,—
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hydra de Lerna
Entre as flôres da bella Armida.
E comtudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo á luz de outro sol, outro abysmo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,
Róla a vida immortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu ambito enorme,
Um segredo que attrae, que desafia—e dorme.
[O CORVO]
(EDGAR POE)
Em certo dia, á hora, á hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi á porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate á porta de mansinho;
«Ha de ser isso e nada mais.»
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia
A sua ultima agonia.
Eu, ancioso pelo sol, buscava
Saccar d'aquelles livros que estudava
Repouso (em vão!) á dôr esmagadora
D'estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguem chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por elle padecido.
Enfim, por aplacal-o aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: «Com effeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
«Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede á minha porta entrada:
«Ha de ser isso e nada mais.»
Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacillo e d'esta sorte
Fallo: «Imploro de vós,—ou senhor ou senhora,
«Me desculpeis tanta demora.
«Mas como eu, precisando de descanço,
«Já cochilava, e tão de manso e manso
«Batestes, não fui logo, prestemente,
«Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Sómente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,
Mas o silencio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra unica e dilecta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro com alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
«Seguramente, há na janella
«Alguma cousa que sussurra. Abramos,
«Eia, fôra o temor, eia, vejamos
«A explicação do caso mysterioso
«D'essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
«Obra do vento e nada mais.»
Abro a janella, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortezias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e recto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquella rigida postura,
Com o gesto severo,—o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize os teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
Vendo que o psssaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attonito, embora a resposta que dera
Difficilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem ha visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
N'um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: «Nunca mais.»
No emtanto, o corvo solitario
Não teve outro vocabulario,
Como se essa palavra escassa que alli disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: «Perdi outr'ora
Tantos amigos tão leaes!
Perderei tambem este em regressando a aurora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
«Que ele trouxe da convivencia
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacavel destino ha castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga,
«Esse estribilho: «Nunca mais.»
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no velludo
Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
Achar procuro a lugubre quimera,
A alma, o sentido, o pavido segredo
Daquelas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
Grasnando a phrase: «Nunca mais.»
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
Sentia o olhar que me abrazava.
Conjecturando fui, tranquillo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lampada cahiam,
Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr'ora alli se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Suppuz então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro thuribulo invisivel;
E eu exclamei então: «Um Deus sensivel
«Manda repouso á dor que te devora
«D'estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
«Onde reside o mal eterno,
«Ou simplesmente naufrago escapado
«Venhas do temporal que te ha lançado
«N'esta casa onde o Horror, o Horror profundo
«Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!
«Por esse céu que além se estende,
«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
«No Eden celeste a virgem que ella chora
«Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
«Regressa ao temporal, regressa
«Á tua noite, deixa-me commigo.
«Vae-te, não fique no meu casto abrigo
«Pluma que lembre essa mentira tua.
«Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
E o corvo ahi fica; eil-o trepado
No branco marmore lavrado
Da antiga Pallas; ei-lo immutavel, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demonio sonhando. A luz cahida
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fóra
D'aquelas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!