Venus Formosa, Venus fulgurava
No azul do céu da tarde que morria,
Quando á janella os braços encostava
Pallida Maria.
Ao ver o noivo pela rua umbrosa,
Os longos olhos avidos enfia,
E fica de repente côr de rosa
Pallida Maria.
Correndo vinha no cavallo baio,
Que ela de longe apenas distinguia,
Correndo vinha o noivo, como um raio...
Pallida Maria!
Trez dias são, trez dias são apenas,
Antes que chegue o suspirado dia,
Em que elles porão termo ás longas penas...
Pallida Maria!
De confusa, naquelle sobressalto,
Que a presença do amado lhe trazia,
Olhos accesos levantou ao alto
Pallida Maria.
E foi subindo, foi subindo acima
No azul do céu da tarde que morria,
A ver se achava uma sonora rima...
Pallida Maria!
Rima de amor, ou rima de ventura,
As mesmas são na escala da harmonia.
Pousa os olhos em Venus que fulgura
Pallida Maria.
E o coração, que de prazer lhe bate,
Acha no astro a fraterna melodia
Que á natureza inteira dá rebate...
Pallida Maria.
Maria pensa: «Tambem tu, decerto,
«Esperas ver, neste final do dia,
«Um noivo amado que cavalga perto,
«Pallida Maria?»
Isto dizendo, subito escutava
Um estrepito, um grito e vozeria,
E logo a frente em ancias inclinava
Pallida Maria.
Era o cavallo, rabido, arrastando
Pelas pedras o noivo que morria;
Maria o viu e desmaiou gritando...
Pallida Maria!
Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,
E a mesma noiva, semi-morta e fria,
Sobre elle as folhas do noivado espalha.
Pallida Maria!
Cruzam-se as mãos, na derradeira prece
Muda que o homem para cima envia,
Antes que desça á terra em que apodrece.
Pallida Maria!
Seis homens tomam do caixão fechado
E vão leval-o á cova que se abria;
Terra e cal e um responso recitado...
Pallida Maria
Quando, trez soes passados, rutilava
A mesma Venus, no morrer do dia,
Tristes olhos ao alto levantava
Pallida Maria.
E murmurou: «Tens a expressão do goivo,
«Tens a mesma roaz melancholia;
«Certamente perdeste o amor e o noivo,
«Pallida Maria?»
Venus, porém, Venus brilhante e bella,
Que nada ouvia, nada respondia,
Deixa rir ou chorar n'uma janela
Pallida Maria.


[TO BE OR NOT TO BE]

(SHAKESPEARE)

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas,
Que as angustias extingue e á carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por elle.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno,
Quando o lodo mortal despído houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre.
Essa a razão que os luctuosos dias
Alonga do infortunio. Quem do tempo
Soffrer quizera ultrajes e castigos,
Injurias da oppressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas maguas,
Das leis a inercia, dos mandões a affronta,
E o vão desdem que de rasteiras almas
O paciente merito recebe,
Quem, se na ponta da despida lamina
Lhe acenára o descanço? Quem ao pezo
De uma vida de enfados e miserias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno paiz mysterioso
D'onde um viajor sequer ha regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a supportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciencia.
Assim da reflexão á luz mortiça
A viva côr da decisão desmaia;
E o firme, essencial commettimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de acção perder o nome.


[LINDOYA]

Vem, vem das aguas, misera Moema,
Senta-te aqui. As vozes lastimosas
Troca pelas cantigas deleitosas,
Ao pé da doce e pallida Coema.
Vós, sombras de Iguassú e de Iracema,
Trazei nas mãos, trazei no collo as rosas
Que o amor desabrochou e fez viçosas
Nas laudas de um poema e outro poema.
Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta
De Lindoya, que a voz suave e forte
Do vate celebrou, a alegre festa.
Além do amavel, gracioso porte,
Vede o mimo, a ternura que lhe resta.
Tanto inda é bella no seu rosto a morte!


[SUAVE MARI MAGNO]