Gosto de ver-te, grave e solitario,
Sob o fumo de esqualida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operario,
E na cabeça a coruscante ideia.
E emquanto o pensamento delineia
Uma philosophia, o pão diario
A tua mão a labutar grangeia
E achas na independencia o teu salario.
Sôem cá fora agitações e lutas,
Sibille o bafo asperrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sobrio, tranquillo, desvellado e terno,
A lei commum, e morres, e transmutas
O suado labor no premio eterno.


[GONÇALVES CRESPO]

Esta musa da patria, esta saudosa
Niobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas não esquece a morte gloriosa.
E pallida, e chorosa,
Ao Tejo vôa, onde no chão caida
Jaz aquella evadida
Lyra da nossa America viçosa.
Com ella torna, e, dividindo os ares,
Trepido, molle, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.
Não é a aza do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os patrios lares.


[ALENCAR]

Hão de annos volver,—não como as neves
De alheios climas, de geladas cores;
Hão de os annos volver, mas como as flôres,
Sobre o teu nome, vividos e leves...
Tu, cearense musa, que os amores
Meigos e tristes, rusticos e breves,
Da indiana escreveste,—ora os escreves
No volume dos patrios esplendores.
E ao tornar este sol, que te ha levado,
Já não acha a tristeza. Extincto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.
Porque o tempo implacavel e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flôr, o encanto...


[CAMÕES]

I