Tu quem és? Sou o seculo que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A gloria resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.
Que cantou elle? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lyra alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Penuria, ermo, desgraça.
Nobremente soffreu? Como homem forte.
Esta immensa oblação?... É-lhe devida.
Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.
Chama-se a isto? A gloria appetecida.
Nós, que o cantamos?... Volvereis á morte.
Elle, que é morto?... Vive a eterna vida.

II

Quando, transposta a lugubre morada
Dos castigos, ascende o florentino
Á região onde o clarão divino
Enche de intensa luz a alma nublada,
A saudosa Beatriz, a antiga amada,
A mão lhe estende e guia o peregrino,
E aquelle olhar ethereo e cristallino
Rompe agora da palpebra sagrada.
Tu, que tambem o Purgatorio andaste,
Tu, que rompeste os circulos do Inferno,
Camões, se o teu amor fugir deixaste,
Ora o tens, como um guia alto e superno
Que a Natercia da vida que choraste
Chama-se Gloria e tem o amor eterno.

III

Quando, torcendo a chave mysteriosa
Que os cancellos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,
Talvez uma visão resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba, que cantaria a acção famosa
Aos ouvidos da própria e extranha gente.
E disse: «Se já n'outra, antiga edade,
«Troya bastou aos homens, ora quero
«Mostrar que é mais humana a humanidade.
«Pois não serás heroe de um canto fero,
«Mas vencerás o tempo e a immensidade
«Na voz de outro moderno e brando Homero.»

IV

Um dia, junto á foz de brando e amigo
Rio de extranhas gentes habitado,
Pelos mares asperrimos levado,
Salvaste o livro que viveu comtigo.
E esse que foi ás ondas arrancado,
Já livre agora do mortal perigo,
Serve de arca immortal, de eterno abrigo,
Não só a ti, mas ao teu berço amado.
Assim, um homem só, naquelle dia,
Naquelle escasso ponto do universo,
Lingua, historia, nação, armas, poesia,
Salva das frias mãos do tempo adverso.
E tudo aquillo agora o desafia.
E tão sublime preço cabe em verso.


[1802-1835]

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida,
Victor Hugo escreveu numa pagina forte
Estes nomes que vão galgando a eterna morte,
Isaias, a voz de bronze, alma sahida
Da coxa de David; Eschylo que a Orestes
E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes
Deu a nota immortal que abala e persuade,
E transmitte o terror, como excita a piedade;
Homero, que cantou a colera potente
De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas
Para gloria maior da sua amada gente,
E com elle Virgilio e as graças virgilianas;
Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro
Dos tyrannos, e o velho e grave florentino,
Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro,
Baixa humano ao inferno e regressa divino;
Logo após Calderon, e logo após Cervantes;
Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;
E, para coroar esses nomes vibrantes,
Shakespeare, que resume a universal poesia.
E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte,
Pega a Historia da penna e na pagina forte,
Para continuar a serie interrompida,
Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.