Cobrem plantas sem flôr crestados muros;
Range a porta ancian; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sitios caros da infancia.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as rôxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dôr occulta aos olhos;
—Dôr que á face não vem,—medrosa e casta,
Intima e funda;—e dos cerrados cilios
Se uma discreta e muda
Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto;
Melancolia tacita e serena,
Que os écos não acorda em seus queixumes,
Respira aquelle rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Eil-os percorrem
Com tardo passo os relembrados sitios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepusculo.
«Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
«No teu languido olhar um raio deixa;
«—Raio quebrado e frio;—o vento agita
«Timido e frouxo as tuas longas tranças.
«Conhecem-te estas pedras; das ruinas
«Alma errante pareces condemnada
«A contemplar teus insepultos ossos.
«Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo
«Sinto não sei que vaga e amortecida
«Lembrança de teu rosto.»
Desceu de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vesper nos seus hombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas corrêram. No outro dia,
Quando as vermelhas rosas do oriente
Ao já proximo sol a estrada ornavam,
Das ruinas sahião lentamente
Duas pallidas sombras...


[MUSA DOS OLHOS VERDES]

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;
Tu que junto do berço o infante cinges
C'os fulgidos cabellos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;
Tu que fazes pulsar o seio ás virgens;
Tu que ás mães carinhosas
Enches o brando, tepido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!
Já cançada de encher languidas flôres
Com as lagrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.
Azas batendo á luz que as trevas rompe,
Piam nocturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silencios graves.
Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancolica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!


[NOIVADO]

Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas?
Além d'esses outeiros
Vai descambando o sol, e á terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubece,
Traz no rosto um véu molle e transparente;
No fundo azul a estrella do poente
Já timida apparece.
Como um bafo suavissimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As arvores agita e imprime ás folhas
O beijo somnolento.
A flôr ageita o calix: cedo espera
O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flôr querida;
Vem contemplar o céu, pagina santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asylo;
Encontrarás aqui o amor tranquillo.....
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte opposto
A lua, como lampada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os cirios vão arder no altar sagrado,
Estrellinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de balsamos rescende
A c'rôa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão comtigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No emtanto eu preparei teu leito á sombra
Do limoeiro em flôr; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e molle alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até á morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gosaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.


[A ELVIRA]

(LAMARTINE)