[SOMBRAS]

Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as palpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um éco do passado,
Em teu seio revive?
Ó tumulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria
Do teu passado escreve a mysteriosa historia?
Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio?
Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio
Apenas alumia a nave e o grande altar
E deixa todo o resto em treva,—e o nosso olhar
Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas,
As sombras immortaes das creaturas mortas,
Palpita o coração de assombro e de terror;
O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor,
Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama;
O animo esclarece aquella eterna chamma;
Ajoelha-se contricto, e murmura-se então
A palavra de Deus, a divina oração.
Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;
Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo;
Corre sobre o passado impenetravel véu;
Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.


[ITE, MISSA EST]

Fecha o missal do amor e a benção lança
Á pia multidão
Dos teus sonhos de moço e de criança,
A benção do perdão.
Sôa a hora fatal,—reza contricto
As palavras do rito:
Ite missa est.
Foi longo o sacrificio; o teu joelho
De curvar-se cançou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite missa est.
De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos labios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite missa est.
Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada,
A hostia do perdão,
A victima divina e profanada
Que chamas coração.
Quasi inteiras perdeste a alma e a vida
Na hostia consumida.
Ite missa est.
Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde; beija a cruz;
Na lampada em que ardia o fogo activo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.
Ite missa est.


[RUINAS]

No hay pájaros en los nidos de antaño.

PROVERBIO HESPANHOL.