SHAKESPEARE
Quando ella falla, parece
Que a voz da briza se cala;
Talvez um anjo emmudece
Quando ella falla.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exhala.
E volta ao gozo perdido
Quando ella falla.
Pudeste eu eternamente,
Ao lado d'ella, escutal-a,
Ouvir sua alma innocente
Quando ella falla.
Minh'alma, já semi-morta,
Conseguíra ao céu alçal-a,
Porque o céu abre uma porta
Quando ella falla.
[MANHÃ DE INVERNO]
Coroada de nevoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de somno e de preguiça,
Nos olhos da fantastica indolente.
Nevoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capellas, lagrimas mais puras.
A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.
Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras humidas da chuva;
Erma de flôres, curva a planta o collo,
E o chão recebe o pranto da viuva.
Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas tremulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua historia escreve.
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
Ás nevoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o valle;
Já se vão descobrindo os horizontes.
Sobe de todo o panno; eis apparece
Da natureza o esplendido scenario;
Tudo alli preparou co' os sabios olhos
A suprema sciencia do emprezario.
Canta a orchestra dos passaros no matto
A symphonia alpestre,—a voz serena
Acorda os écos timidos do valle;
E a divina comedia invade a scena.
[LA MARCHESA DE MIRAMAR][2]
A miserrima Dido
Pelos paços reaes vaga ululando.
GARÇÃO.
De quanto sonho um dia povoaste
A mente ambiciosa,
Que te resta? Uma pagina sombria,
A escura noite e um tumulo recente.
Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas
Viu erguer, viu cahir teu fragil throno
Meteoro do seculo, passaste,
Ó triste imperio, allumiando as sombras.
A noite foi teu berço e teu sepulcro.
Da tua morte os goivos inda acháram
Frescas as rosas dos teus breves dias;
E no livro da historia uma só folha
A tua vida conta: sangue e lagrimas.
No tranquillo castello,
Ninho d'amor, asylo de esperanças,
A mão de aurea fortuna preparára,
Menina e moça, um tumulo aos teus dias.
Junto do amado esposo,
Outra corôa cingias mais segura,
A corôa do amor, dadiva santa
Das mãos de Deus. No céu de tua vida
Uma nuvem sequer não sombreava
A esplendida manhã; extranhos eram
Ao recatado asylo
Os rumores do seculo.
Estendia-se
Em frente o largo mar, tranquilla face
Como a da consciencia alheia ao crime,
E o céu, cupula azul do equoreo leito.
Alli, quando ao cair da amena tarde,
No thalamo encantado do occidente,
O vento melancolico gemia,
E a onda murmurando,
Nas convulsões do amor beija a areia,
Ias tu junto d'elle, as mãos travadas,
Os olhos confundidos,
Correr as brandas, somnolentas aguas,
Na gondola discreta. Amenas flôres
Com suas mãos teciam
As namoradas Horas; vinha a noite,
Mãe de amores, solicita descendo,
Que em seu regaço a todos envolvia,
O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.
Mas além, muito além do céu fechado,
O sombrio destino, contemplando
A par do teu amor, a etherea vida,
As santas effusões das noites bellas,
O terrivel scenario preparava
A mais terriveis lances.
Então surge dos thronos
A prophetica voz que annunciava
Ao teu credulo esposo:
«Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe,
No fundo do oceano, envolto em nevoas,
Salpicado de sangue, ergue-se um throno.
Chamão-no a elle as vozes do destino.
Da tranquilla mansão ao novo imperio
Cobrem flôres a estrada,—estereis flôres
Que mal podem cobrir o horror da morte.
Tu vais, tu vais tambem, victima infausta;
O sopro da ambição fechou teus olhos....
Ah! quão melhor te fôra
No meio d'essas aguas
Que a regia nau cortava, conduzindo
Os destinos de um rei, achar a morte:
A mesma onda os dous envolveria.
Uma só convulsão ás duas almas
O vinculo quebrára, e ambas iriam,
Como raios partidos de uma estrella,
Á eterna luz juntar-se.
Mas o destino, alçando a mão sombria,
Já traçára nas paginas da historia
O terrivel mysterio. A liberdade
Vela n'aquelle dia a ingenua fronte.
Pejam nuvens de fogo o céu profundo.
Orvalha sangue a noite mexicana....
Viuva e moça, agora em vão procuras
No teu placido asylo o extincto esposo.
Interrogas em vão o céu e as aguas.
Apenas surge ensanguentada sombra
Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,
Um soluço profundo reboando
Pela noite do espirito, parece
Os échos acordar da mocidade.
No emtanto, a natureza alegre e viva,
Ostenta o mesmo rosto.
Dissipam-se ambições, imperios morrem,
Passam os homens como pó que o vento
Do chão levanta ou sombras fugitivas,
Transformam-se em ruina o templo e a choça.
Só tu, só tu, eterna natureza,
Immutavel, tranquilla,
Como rochedo em meio do oceano,
Vês baquear os seculos.
Sussurra
Pelas ribas do mar a mesma briza;
O céu é sempre azul, as aguas mansas;
Deita-se ainda a tarde vaporosa
No leito do occidente;
Ornam o campo as mesmas flôres bellas...
Mas em teu coração magoado e triste,
Pobre Carlota! o intenso desespero
Enche de intenso horror o horror da morte.
Viuva da razão, nem já te cabe
A illusão da esperança.
Feliz, feliz, ao menos, se te resta,
Nos macerados olhos,
O derradeiro bem:—algumas lagrimas!