[ULTIMA FOLHA]

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao éco dos sagrados ermos
A ultima harmonia.
Dos teus cabellos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda na poente
Não quebra os raios pallidos e frios
O sol resplandecente.
Vês? Li ao fundo o valle arido e secco
Abra-se, como um leito mortuario;
Espera-te o silencio da planicie,
Como um frio sudario.
Desce. Virá um dia em que mais bella,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingenua fronte
Das flôres da manhã,—e ao monte agreste,
Como a noiva phantastica dos ermos,
Irás, musa celeste!
Então, nas horas solemnes
Em que o mystico hymeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;
E o rio, a arvore e o campo,
A arêa, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A gloria da natureza,
A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as azas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao éco dos sagrados ermos
A ultima harmonia!


[PHALENAS]

(1870)

[FLOR DA MOCIDADE][1]

Eu conheço a mais bella flôr;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bella flôr.
Tem do céu a serena côr,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bella flôr,
És tu, rosa da mocidade.
Vive ás vezes na solidão,
Coma filha da briza agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive ás vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive ás vezes na solidão,
Como filha da briza agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flôr morta já nada vai.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


[QUANDO ELLA FALLA]

She speaks
O speake again, bright angel!