Do nume da belleza o berço celebrado
Foi o mar; Venus bella entre espumas nasceu.
Veio a edade de ferro, e o nume venerado
Do venerado altar baqueou:—pereceu.
Mas a belleza és tu. Como Venus marinha,
Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor.
Se páras, és um nume; andas, uma rainha,
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!
Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vaga
A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús,
Buscar adorações de uma plaga a outra plaga,
E das regiões da nevoa ás regiões da luz!
[AS SELVAS]
Um silencio de morte entrou no seio ás selvas.
Já não pisa Diana este sagrado chão;
Nem já vem repousar no leito destas relvas
Aguardando saudosa o amor e Endymião.
Da grande caçadora a um solicito aceno
Já não vem, não acode o grupo jovial;
Nem o éco repete a flauta de Sileno,
Apoz o grande ruido a mudez sepulchral.
Mas Diana apparece. A floresta palpita,
Uma seiva melhor circula mais veloz;
É vida que renasce, é vida que se agita;
A luz do teu olhar, ao som da tua voz!
[O POETA]
Tambem eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solemne mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O ultimo suspiro e a ultima oração;
Tambem eu junto a voz á voz da natureza,
E soltando o meu hymno ardente e triumphal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza
E banharei minh'alma em tua luz,—Ideal!
Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás maguas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cantico das aguas,
Não procures, Corinna, o caminho do mar!
V
Guarda estes versos que escrevi chorando
Como um alivio á minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um éco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
Unico em meio das paixões vulgares,
Fui a teus pés queimar minh'alma anciosa,
Como se queima o oleo ante os altares;
Tive a paixão indomita e fogosa,
Unica em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança,
Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha illusão fez-me, talvez, criança;
E eu pretendi dormir aos teus abraços,
Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado á sombra do mysterio
Pude cantar meu hymno doloroso;
E o mundo ouviu o som doce ou funereo
Sem conhecer o coração ansioso
Refugiado á sombra do mysterio.
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de princeza
Transluz uma alma ardente e compassiva
Capaz de reanimar minha incerteza;
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Como um réo indefeso e abandonado,
Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;
E se a perseguição me tem cansado.
Embora, escutarei o teu aresto,
Como um réo indefeso e abandonado.
Embora fujas aos meus olhos tristes,
Minh'alma irá saudosa, enamorada,
Acercar-se de ti lá onde existes;
Ouvirás minha lyra apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos tristes.
Talvez um dia meu amor se extinga,
Como fogo de Vesta mal cuidado
Que sem o zelo da Vestal não vinga:
Na ausencia e no silencio condemnado
Talvez um dia meu amor se extinga.
Então não busques reavivar a chamma,
Evoca apenas a lembrança casta
Do fundo amor daquele que não ama;
Esta consolação apenas basta;
Então não busques reavivar a chamma.
Guarda estes versos que escrevi chorando,
Como um alivio á minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um éco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
VI
Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano;
É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano.
Solta do chão, abrindo as asas luminosas.
Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas,
Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna,
Reveste a natureza a purpura divina!
Lá, como quando volta a primavera em flôr,
Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;
Ao influxo celeste e doce da belleza,
Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;
Mais languida e mais bella a tarde pensativa
Desce do monte ao valle; e a viração lasciva
Vai despertar á noite a melodia extranha
Que falam entre si os olmos da montanha;
A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia;
O mar tem novos sons e mais viva ardentia;
A onda enamorada arfa e beija as arêas,
Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!
O esplendor da belleza é raio creador:
Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor.
Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida,
Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffrida
Da saudade que punge e do amor que lacera,
E palpita e soluça e sangra e desespera.
Sinto em torno de mim a muda natureza
Respirando, como eu, a saudade e a tristeza;
É deste ermo que eu vou, alma desventurada,
Murmurar junto a ti a estrophe immaculada
Do amor que não perdeu, co'a ultima esperança,
Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda,
Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda!
Como divaga a abelha inquieta e sequiosa
Do calice do lyrio ao calice da rosa,
Divaguei de alma em alma em busca deste amor;
Gota de mel divino, era divina a flôr
Que o devia conter. Eras tu.
No delirio
De te amar—olvidei as lutas e o martyrio;
Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma,
Sentir e ver o amor atravez de uma alma;
De outras bellezas vans não valeu o explendor,
A belleza eras tu:—tinhas a alma e o amor.
Pelicano do amor, dilacerei meu peito,
E com meu proprio sangue os filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;
Por elles reparti minh'alma. Na provança
Ella não fraqueou, antes surgiu mais forte;
É que eu puz neste amor, neste ultimo transporte
Tudo o que vivifica a minha juventude:
O culto da verdade e o culto da virtude,
A venia do passado e a ambição do futuro,
O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e amada Corinna,
Accorda-te a lembrança um éco de afflicção?
Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma commoção?
Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!
Vou, sequioso espirito,
Cobrando novo alento,
N'aza veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao carcere,
Que á terra me tem prezo,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!
Então, se á hora languida
Da tarde que declina,
Do arbusto da collina
Beijando a folha e a flôr,
A brisa melancolica
Levar-te entre perfumes
Uns timidos queixumes
Echos de magua e dôr;
Então, se o arroio timido
Que passa e que murmura
Á sombra da espessura
Dos verdes salgueiraes.
Mandar-te entre os murmurios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;
Então, se no silencio
Da noite adormecida,
Sentires—mal dormida—
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas palpebras,
Um nome aos teus ouvidos,
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração;
Da magoa que consome
O meu amor venceu;
Não tremas—é teu nome,
Não fujas—que sou eu!