C. MAROT.
Olha como, cortando os leves ares,
Passam do valle ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, á tarde, cobre transparente véu;
Voam tambem como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da furia dos contrarios ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.
Porque o céu é tambem aquella estancia
Onde respira a doce creatura,
Filha de nosso amor, sonho da infancia,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flôr, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!
Vão para aquella estancia, enamorados,
Os pensamentos de minh'alma anciosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lagrimas e dôr;
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos écos a canção primeira
De um livro escripto pela mão do amor.
Dirão tambem como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
Da tua imagen vaporosa e linda,
Unico alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrellas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.
[O VERME]
Existe uma flôr que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benefica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flôr virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flôr o calix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flôr é o coração,
Aquelle verme o ciume.
[UN VIEUX PAYS][3]
... juntamente choro e rio.
CAMÕES
Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière,
Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir;
Un pays de blasphème, autant que de prière,
Né pour le doute et pour l'espoir.
On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge,
Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;
Le bonheur y paraît quelquefois dans un songe
Entre les bras du sombre ennui.
L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire,
Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;
Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire
Qui n'est peut-être qu'un sanglot.
On va dans ce pays de misère et d'ivresse,
Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;
Je l'habite pourtant, j'y passe ma jeunesse....
Hélas! ce pays, c'est mon cœur.