Na perfumada alcova a esposa estava,
Noiva ainda na vespera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia,
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa lettra feito
Havia este conceito:
«Quando, immovel o vento e o ar pesado,
«Arder o intenso estio,
«Serei por mão amiga ambicionado;
«Mas volte o tempo frio,
«Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»
Lê a esposa este aviso, e o pensamento
Volve ao joven marido.
«Arde-lhe o coração n'este momento
«(Diz ella) e vem buscar enternecido
«Brandas auras de amor. Quando mais tarde
«Tornar-se em cinza fria
«O fogo que hoje lhe arde,
«Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»
V
A FOLHA DO SALGUEIRO
(Tchan-Tiú-Lin.)
Amo aquella formosa e terna moça
Que, á janella encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio á margem
Casa faustosa e bella.
Amo-a, porque deixou das mãos mimosas
Verde folha cair nas mansas aguas.
Amo a briza de léste que sussurra,
Não porque traz nas azas delicadas
O perfume dos verdes pecegueiros
Da oriental montanha.
Amo-a porque impelliu co'as tenues azas
Ao meu batel a abandonada folha.
Se amo a mimosa folha aqui trazida,
Não é porque me lembre á alma e aos olhos
A renascente, a amavel primavera,
Pompa e vigor dos valles.
Amo a folha por ver-lhe um nome escripto,
Escripto, sim, por ella, e esse... é meu nome.
VI
AS FLORES E OS PINHEIROS
(Tin-Tun-Sing.)
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flôres
Os calices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flôres tresloucadas
Zombam d'elles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneiando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sitio onde escutára
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flôres.