Nada perdes, leitor, nem perdem nada
As esquecidas musas; pouco importa
Que tu, vulgar materia condemnada,
Aches que um tal amor é lettra morta.
Pódes, cedendo á opinião honrada,
Fechar á minha Elvira a esquiva porta.
Almas de prosa chã, quem vos daria
Conhecer todo o amor que ha na poesia?

XIII

Ora, o tio de Elvira, o velho Antero,
Erudito e philosopho profundo,
Que sabia de cór o velho Homero,
E compunha os annaes do Novo Mundo;
Que escrevêra uma vida de Severo,
Obra de grande tomo e de alto fundo;
Que resumia em si a Grecia e Lacio,
E n'um salão fallava como Horacio;

XIV

Disse uma noite á pallida sobrinha:
«Elvira, sonhas tanto! devaneias!
«Que andas a procurar, querida minha?
«Que ambições, que desejos ou que idéas
«Fazem gemer tua alma innocentinha?
«De que esperança vã, meu anjo, anceias?
«Teu coração de ardente amor suspira;
«Que tens?—Eu nada,» respondia Elvira.

XV

«Alguma cousa tens!» tornava o tio;
«Porque olhas tu as nuvens do poente,
«Vertendo ás vezes lagrimas a fio,
«Magoada expressão d'alma doente?
«Outras vezes, olhando a agua do rio,
«Deixas correr o espirito indolente,
«Como uma flôr que ao vento alli tombára,
«E a onda murmurando arrebatára.»

XVI

«—Latet anguis ïn herba...» Neste instante
Entrou a tempo o chá... perdão, leitores,
Eu bem sei que é preceito dominante
Não misturar comidas com amores;
Mas eu não vi, nem sei se algum amante
Vive de orvalho ou petalas de flôres;
Namorados estomagos consomem;
Comem Romeos, e Julietas comem.

XVII