Entrou a tempo o chá, e foi servil-o,
Sem responder, a moça interrogada,
C'um ar tão soberano e tão tranquillo
Que o velho emmudeceu. Ceia acabada,
Fez o escriptor o costumado chylo,
Mas um chylo de especie pouco usada,
Que consistia em ler um livro velho;
N'essa noite acertou ser o Evangelho.

XVIII

Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo
Em que o filho de Deus diz que a açucena
Não labora nem fia, e o tempo escasso
Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena;
Leu e estendendo o já tremulo braço
A triste, á melancolica pequena,
Apontou-lhe a passagem da Escriptura
Onde lêra lição tão recta e pura.

XIX

«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te;
«Deixa em paz teu espirito, criança:
«Se existe um coração que deva amar-te,
«Ha de vir; vive só d'essa esperança.
«As venturas do amor um deos reparte;
«Queres têl-as? põe n'elle a confiança.
«Não persigas com supplicas a sorte;
«Tudo se espera; até se espera a morte!

XX

«A doutrina da vida é esta: espera,
«Confia, e colherás a anciada palma;
«Oxalá que eu te apague essa chimera
«Lá diz o bom Demophilo que á alma;
«Como traz a andorinha a primavera,
«A palavra do sabio traz a calma,
«O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena?
«Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»

XXI

Paliava aquelle velho como falla
Sobre côres um cego de nascença.
Pear a juventude! Condemnal-a
Ao somno da ambição vivaz e intensa!
Co' as leves azas da esperança ornal-a
E não querer que rompa a esphera immensa!
Não consentir que esta manhã de amores
Encha com frescas lagrimas as flôres

XXII