Mal o velho acabava e justamente
Na rija porta ouviu-se uma pancada.
Quem seria? Uma serva diligente,
Travando de uma luz, desceu a escada.
Pouco depois rangia brandamente
A chave, e a porta aberta dava entrada
A um rapaz embuçado que trazia
Uma carta, e ao doutor fallar pedia.

XXIII

Entrou na sala, e lento, e gracioso,
Descobriu-se e atirou a capa a um lado;
Era um rosto poetico e viçoso
Por soberbos cabellos coroado;
Grave sem gesto algum pretencioso,
Elegante sem ares de enfeitado;
Nos labios frescos um sorriso amigo,
Os olhos negros e o perfil antigo.

XXIV

Demais, era poeta. Era-o. Trazia
N'aquelle olhar não sei que luz extranha
Que indicava um alumno da poesia,
Um morador da classica montanha,
Um cidadão da terra da harmonia,
Da terra que eu chamei nossa Allemanha,
N'uns versos que hei de dar um dia a lume,
Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.

XXV

Um poeta! e de noite! e de capote!
Que é isso, amigo autor? Leitor amigo.
Imagina que estás n'um camarote
Vendo passar-se em scena um drama antigo,
Sem lança não conheço D. Quixote,
Sem espada é apocrypho um Rodrigo;
Heróe que ás regras classicas escapa,
Póde não ser heróe, mas traz a capa.

XXVI

Heitor (era o seu nome) ao velho entrega
Uma carta lacrada; vem do norte.
Escreve-lhe um philosopho collega
Já quasi a entrar no thalamo da morte.
Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega,
A provada amizade, o esteio forte,
Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes,
Salvou-lhe o nome de terriveis lances.

XXVII