Dizia a carta: «Crime ou virtude,
«É meu filho poeta; e corre fama
«Que já faz honra á nossa juventude
«Co' a viva inspiração de etherea chamma;
«Diz elle que, se o genio não o illude,
«Camões seria se encontrasse um Gama.
«Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro;
«Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»
XXVIII
Lida a carta, o philosopho erudito
Abraça o moço e diz em tom pausado:
«Um sonhador do azul e do infinito!
«É hospede do céu, hospede amado.
«Um bom poeta é hoje quasi um mytho,
«Se o talento que tem é já provado,
«Conte co' o meu exemplo e o meu conselho;
«Boa lição é sempre a voz de um velho.»
XXIX
E trava-lhe da mão, e brandamente
Leva-o junto d'Elvira. A moça estava
Encostada á janella, e a esquiva mente
Pela extensão dos ares lhe vagava.
Voltou-se distrahida, e de repente
Mal nos olhos de Heitor o olhar fitava,
Sentiu... Inutil fora relatal-o;
Julgue-o quem não puder experimental-o.
XXX
Ó santa e pura luz do olhar primeiro!
Elo de amor que duas almas liga!
Raio de sol que rompe o nevoeiro
E casa a flôr á flôr! Palavra amiga
Que, trocada um momento passageiro,
Lembrar parece uma existencia antiga!
Lingua, filha do céu, doce eloquencia
Dos melhores momentos da existencia!
XXXI
Entra a leitora n'uma sala cheia;
Vai isenta, vai livre de cuidado:
Na cabeça gentil nenhuma idéa,
Nenhum amor no coração fechado.
Livre como a andorinha que volteia
E corre loucamente o ar azulado.
Venham dous olhos, dous, que a alma buscava...
Era senhora? ficará escrava!