C'um só olhar escravos elle e ella
Já lhes pulsa mais forte o sangue e a vida;
Rapida corre aquella noite, aquella
Para as castas venturas escolhida;
Assoma já nos labios da donzella
Lampejo de alegria esvaecida.
Foi milagre de amor, prodigio santo.
Quem mais fizera? Quem fizera tanto?

XXXIII

Preparára-se ao moço um aposento.
Oh! reverso da antiga desventura!
Têl-o perto de si! viver do alento
De um poeta, alma languida, alma pura!
Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento,
Aguas santas, baptismo de ventura!
Emquanto o velho, amigo de outra fonte,
Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.

XXXIV

Devo agora contar, dia por dia,
O romance dos dous? Inutil fôra;
A historia é sempre a mesma; não varia
A paixão de um rapaz e uma senhora.
Vivem ambos do olhar que se extasia
E conversa co'a alma sonhadora;
Na mesma luz de amor os dous se inflammam;
Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»

XXXV

Todavia a leitora curiosa
Talvez queira saber de um incidente;
A confissão dos dous;—scena espinhosa
Quando a paixão domina a alma que sente.
Em regra, confissão franca e verbosa
Revela um coração independente;
A paz interior tudo confia,
Mas o amor, esse hesita e balbucia.

XXXVI

O amor faz monosyllabos; não gasta
O tempo com analyses compridas;
Nem é proprio de boca amante e casta
Um chuveiro de phrases estendidas;
Um volver d'olhos languido nos basta
Por conhecer as chammas comprimidas;
Coração que discorre e faz estylo,
Tem as chaves por dentro e está tranquillo.

XXXVII