Deu-se o caso uma tarde em que chovia,
Os dous estavão na varanda aberta.
A chuva peneirava, e além cobria
Cinzento véu o occaso; a tarde incerta
Já nos braços a noite a recebia,
Como amorosa mãe que a filha aperta
Por enxugar-lhe os prantos magoados.
Eram ambos immoveis e calados.
XXXVIII
Juntos, ao parapeito da varanda,
Viam cahir da chuva as gottas finas,
Sentindo a viração fria, mas branda,
Que balançava as frouxas casuarinas.
Raras, ao longe, de uma e de, outra banda,
Pelas do céu tristissimas campinas,
Viam correr da tempestade as aves
Negras, serenas, lugubres e graves.
XXXIX
De quando em quando vinha uma rajada
Borrifar e agitar a Elvira as tranças,
Como se fôra a briza perfumada
Que á palmeira sacode as tenues franças.
A fronte gentilissima e engraçada
Sacudia co'a chuva as más lembranças;
E ao passo que chorava a tarde escura
Ria-se n'ella a aurora da ventura.
XL
«Que triste a tarde vai! que véu de morte
«Cobrir parece a terra! (o moço exclama),
«Reproducção fiel da minha sorte,
«Sombra e choro.—Porque? pergunta a dama;
«Diz que teve dos céus uma alma forte...
«—É forte o bronze e não resiste á chamma;
«Leu versos meus em que zombei do fado?
«lllusões de poeta mallogrado!»
XLI
«Somos todos assim. E nossa gloria
«Contra o destino oppôr alma de ferro;
«Desafiar o mal, eis nossa historia,
«E o tremendo duello é sempre um erro.
«Custa-nos caro uma fallaz victoria
«Que nem consola as mágoas do desterro,
«O desterro,—esta vida obscura e rude
«Que a dôr enfeita e as victimas illude.