«Contra esse mal tremendo que devora
«A seiva toda á nossa mocidade,
«Que remedio haveriamos, senhora,
«Senão versos de affronta e liberdade?
«No emtanto, bastaria acaso um'hora,
«Uma só, mas de amor, mas de piedade,
«Para trocar por seculos de vida
«Estes de dôr acerba e envilecida.»
XLIII
Al não disse, e, fitando olhos ardentes
Na moça, que de enleio enrubecia,
Com discursos mais fortes e eloquentes
Na exposição do caso proseguia;
A pouco e pouco as mãos intelligentes
Traváram-se; e não sei se conviria
Accrescentar que um osculo... Risquemos,
Não é bom mencionar estes extremos.
XLIV
Duas sombrias nuvens afastando,
Tenue raio de sol rompêra os ares,
E, no amoroso grupo desmaiando,
Testemunhou-lhe as nupcias singulares.
A nesga azul do occaso contemplando,
Sentirão ambos irem-lhe os pezares,
Como nocturnas aves agoureiras
Que á lua fogem medrosas e ligeiras.
XLV
Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas?
Nenhuma causa; fantasia apenas;
O eterno devanear das almas bellas,
Quando as dominam fervidas camenas;
Uma ambição de conquistar estrellas,
Como se colhem lucidas phalenas;
Um desejo de entrar na eterna lida,
Um querer mais do que nos cede a vida.
XLVI
Com amores sonhava, ideal formado
De celestes e eternos esplendores,
A ternura de um anjo destinado
A encher-lhe a vida de perpetuas flôres.
Tinha-o emfim, qual fôra antes creado
Nos seus dias de mágoas e amargores;
Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso;
Estava á porta emfim do paraiso.