N'essa noite, o poeta namorado
Não conseguiu dormir. A alma fugíra
Para ir velar o doce objecto amado,
Por quem, nas ancias da paixão, suspira;
E é provavel que, achando o exemplo dado,
Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva;
De maneira que os dous, de si ausentes,
Lá se achavão mais vivos e presentes.

XLVIII

Ao romper da manhã, co'o sol ardente,
Briza fresca, entre as folhas sussurrando,
O não-dormido vate acorda, e a mente
Lhe foi dos vagos sonhos arrancando.
Heitor contempla o valle resplendente,
A flôr abrindo, o passaro cantando;
E a terra que entre risos acordava,
Ao sol do estio as roupas enxugava.

XLIX

Tudo então lhe sorria. A natureza,
As musas, o futuro, o amor e a vida;
Quanto sonhára aquella mente accesa
Dera-lhe a sorte, emfim, compadecida.
Um paraiso, uma gentil belleza,
E a ternura castissima e vencida
De um coração creado para amores,
Que exhala affectos como aroma as flôres.

L

E ella? Se conheceste em tua vida,
Leitora, o mal do amor, delirio santo,
Dôr que eleva e conforta a alma abatida,
Embriaguez do céu, divino encanto,
Se a tua face ardente e enrubecida
Pallejou com suspiros e com prantos,
Se ardeste emfim, naquella intensa chamma,
Entenderás o amor de ingenua dama.

LI

Repara que eu não fallo desse enleio
De uma noite de baile ou de palestra;
Amor que mal agita a flôr do seio,
E ao chá termina e acaba com a orchestra;
Não me refiro ao simples galanteio
Em que cada menina é velha mestra,
Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro;
Fallo do amor, não fallo do namoro.

LII