Eden de amor, ó solidão fechada,
Casto asylo a que o sol dos novos dias
Vai mandar, como a furto, a luz coada
Pelas frestas das verdes gelosias,
Guarda-os ambos; conserva-os recatada.
Almas feitas de amor e de harmonias,
Tecei, tecei as vividas capellas,
Deixai correr sem susto as horas bellas.

LIII

Cá fóra o mundo insipido e profano
Não dá, nem póde dar o enleio puro
Das almas novas, nem o doce engano
Com que se esquecem males do futuro.
Não busqueis penetrar n'este oceano
Em que se agita o temporal escuro.
Por fugir ao naufragio e ao soffrimento,
Tendes uma enseada,—o casamento.

LIV

Resumamos, leitora, a narrativa.
Tanta strophe a cantar ethereas chammas
Pede compensação, musa insensiva,
Que fatigais sem pena o ouvido ás damas.
Demais, é regra certa e positiva
Que muitas vezes as maiores famas
Perde-as uma ambição de tagarella;
Musa, aprende a lição; musa, cautela!

LV

Mezes depois da scena relatada
Nas strophes, a folhas,—o poeta
Ouviu do velho Antero uma estudada
Oração ciceronica e selecta;
A conclusão da arenga preparada
Era mais agradavel que discreta.
Dizia o velho erguendo olhos serenos:
«Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»

LVI

Lagrima santa, lagrima de gosto
Vertem olhos de Elvira; e um riso aberto
Veio inundar-lhe de prazer o rosto
Como uma flôr que abrisse no deserto.
Se iam já longe as sombras do desgosto;
Inda até li era o futuro incerto;
Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grata
Beija a mão que o futuro lhe resgata.

LVII