Correm-se banhos, tiram-se dispensas,
Vai-se buscar um padre ao povoado;
Prepara-se o enxoval e outras pertenças
Necessarias agora ao novo estado.
Notam-se até algumas differenças
No modo de viver do velho honrado,
Que sacrifica á noiva e aos deuses lares
Um estudo dos classicos jantares.

LVIII

«Onde vás tu?—Á serra!—Vou comtigo.
«—Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada.
«Se cansares?—Sou leve, meu amigo;
«Descerei nos teus hombros carregada.
«—Vou compôr encostado ao cedro antigo
«Canto de nupcias.—Seguirei calada;
«Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança;
«Musa serei sem perturbar.—Criança!»

LIX

Brandamente repelle Heitor a Elvira;
A moça fica; o poeta lentamente
Sobe a montanha. A noiva repetíra
O primeiro pedido inutilmente.
Olha-o de longe, e timida suspira.
Vinha a tarde cahindo frouxamente,
Não triste, mas risonha e fresca e bella,
Como a vida da pallida donzella.

LX

Chegando, emfim, á c'rôa da collina,
Víram olhos de Heitor o mar ao largo,
E o sol, que despe a veste purpurina,
Para dormir no eterno leito amargo.
Surge das aguas pallida e divina,
Essa que tem por deleitoso encargo
Velar amantes, proteger amores,
Lua, musa dos candidos palores.

LXI

Respira Heitor; e livre. O casamento?
Foi sonho que passou, fugaz idéa
Que não pôde durar mais que um momento.
Outra ambição a alma lhe incendeia.
Dissipada a illusão, o pensamento
Novo quadro a seus olhos patenteia,
Não lhe basta aos desejos de sua alma
A enseada da vida estreita e calma.

LXII